quinta-feira, 14 de abril de 2011

O PODER DA MIDIA, CASO REALENGO E ESQUIZOFRENIA: DISSEMINANDO PRECONCEITOS.



O Grito - Edvard Munch





Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.”
Albert Einstein


A ciência pode ter quebrado o preconceito das pessoas sobre as doenças, 
mas não das pessoas sobre os doentes.”
 Pedro Bravo de Souza







Chamam normalmente a imprensa de “terceiro poder”.
No nosso país, até alguns anos atrás, isto é, até o final da ditadura, a expressão “terceiro poder” não tinha sentido, já que a imprensa era totalmente reprimida pelo regime militar.
Contudo, os tempos são outros. A imprensa divulga informação, levanta questionamentos sérios, reivindica direitos da população, mas também comete sérias falhas, já que muito comumente nos deparamos com informações incorretas, suposições “carimbadas” como verdades incontestes, e também (o que é pior), ela também consegue disseminar preconceitos.
Hoje, é impossível pensar no país e no mundo sem os “mass media” (ou, em português, os meios de comunicação de massas).
Os jornais, o rádio e a televisão criam e recriam o pensamento da população. As coisas só passam a ter existência se forem publicadas em um meio de comunicação.
Portanto, o fato de ser notícia já é “quase notícia”! Para que ela venha a ser uma noticia de verdade, precisa passar pelo crivo daqueles que não se limitam a relatar o fato: eles selecionam-nas, interpretam-nas e atribuem-lhes a importância que bem querem, conseguindo assim, de certa forma, manipulá-las. Na luta absurda pela audiência, a população é a principal vitima, e muitas vezes os próprios jornalistas também, já que estes muitas vezes são cobrados por números, IBOPE, audiência, e não por apenas informar.
A mídia tem a capacidade não só de informar, mas de criar mitos e preconceitos, espalhar pensamentos positivos e negativos também. A imprensa é forte ao ponto derrubar um presidente (que o diga Fernando Collor de Melo).
O mais vergonhoso é ver que algumas pessoas “pegam carona” no sensacionalismo da mídia para se auto promover, e no caso de alguns políticos, angariar alguns votos para as próximas eleições.
Hoje por exemplo, assisti uma reportagem na qual o presidente do Senado José Sarney, defendia um novo plebiscito sobre a proibição do comércio de armas e munições , pois  na opinião dele, o Brasil vive um momento diferente ao da época do referendo, realizado em 23 de outubro de 2005, em que a maioria da população brasileira rejeitou a proibição da venda de armas e munições.  
O massacre na escola no Realengo
Certamente ele não chegou a essa conclusão analisando dados sérios sobre os índices de criminalidade, mas sim, baseando-se no recente caso do massacre das crianças na escola do Realengo.
Levanto então a seguinte questão: mas o jovem cometeu esta atrocidade com armas compradas legalmente? Ele foi até a Policia Federal para solicitar porte de armas? NÃO! Ele comprou as armas ilegalmente, não tinha porte, e ainda assim cometeu aquela barbárie!
Mas é claro que o digníssimo presidente do Senado não poderia perder esta oportunidade única de pegar uma carona com a mídia sensacionalista para se autopromover!
Ainda levanto outra questão: Nossos jornais falam em crimes brutais, trânsito selvagem, suicídios na mídia, epidemia de Bullying, mas ninguém toca no assunto sobre a “desassistência” em Saúde Mental, ou ainda, à “desassistência” à saúde publica como um todo. Afinal, estamos em um país onde frotas de ambulâncias e milhares de profissionais da saúde ficam de prontidão em um estádio de futebol, ou em um desfile de escolas de samba, ou em qualquer situação que chame a atenção da população, e enquanto isso, pessoas morrem nas filas dos hospitais por falta de atendimento ou por falta de resgate em tempo hábil.
Mas o que a população ganha com todo este exagero? Existem ganhos?

MASSACRE DO REALENGO E A PROPAGAÇÃO DO PRECONCEITO:

O preconceito é um "pré-conceito", e como tal, é passível de erros. Este é um câncer que o homem moderno ainda não conseguiu curar, por mais que sejamos mais evoluídos que o homo neanderthalensis.
O preconceito para com os portadores de patologias psiquiátricas é um fato, e a informação indevidamente transmitida tem o poder de apenas aumentar este mal.
Claro que a violência esta disseminada em nossa sociedade, mas ver as constantes reportagens e discussões de crimes de grande comoção nacional como os da escola do Realengo, faz com que se espalhe pela população o medo generalizado (é o que os psicólogos chamam de indução).
Vemos uma superexposição do caso, onde a violência com a qual o jovem atirou nas crianças tem sido atribuída à esquizofrenia.
Já ouvi pessoas dizerem que tem “medo de esquizofrênicos, pois eles matam pessoas”, e também já ouvi esquizofrênicos dizendo que “sentem medo em vir a fazer algo igual durante um surto”.
Essa exploração errônea e excessiva do caso faz com que aumente o preconceito para com os esquizofrênicos, e para piorar, espalha essa sensação de medo na população (a "indução").
Assisti à uma entrevista na qual uma  psicóloga cometeu o gravíssimo erro de afirmar em rede nacional durante uma entrevista que "o assassino, pela carta que escreveu, dava sérios indícios de que era esquizofrênico".
Contudo, vale lembrar que esta profissional foi péssima em sua colocação, e podemos enumerar alguns motivos.
Primeiro, porque cabe ao psiquiatra definir o diagnóstico; segundo, porque a esquizofrenia não é o tipo de transtorno cujo diagnóstico pode ser definido somente lendo uma carta ou através do relato de vizinhos; terceiro, pode-se levar anos e anos para chegar a este diagnóstico, já que um dos grandes problemas em diagnosticar a esquizofrenia, é o fato de que este transtorno tem uma série de sintomas que são comuns a várias doenças. 
Assisti a uma outra entrevista de um psiquiatra forense, onde o mesmo assistiu aos videos deixados pelo assassino, e foi enfático: "trata-se de esquizofrenia paranóide!" - afirmou. Qual foi o embasamento para esta afirmação? A face inexpressiva do jovem, o fato de que o mesmo sentia-se perseguido, e por achar que a sociedade está perdida. Será que  estas são evidências suficientes para tal afirmação?
Pronto! Meros indícios viram sinônimo de CERTEZA ABSOLUTA! O jovem pode SIM ser esquizofrênico, mas também pode ter uma série de outras psicoses (aliás, a lista é tão grande, que seria necessário um novo post apenas para enumerá-las).
Mas vou mencionar apenas um exemplo... Existe uma síndrome chamada Amok que consiste numa súbita e espontânea explosão de raiva selvagem, que faz com que a pessoa afetada corra loucamente, armada e ataque indiscriminadamente pessoas ou animais, ferindo ou matando tudo o que se cruze com ele até que seja imobilizado ou se suicide.
Estou querendo dizer que este é um caso de Amok e não de esquizofrenia? NÃO! Não há dados suficientes para se ter certeza de qual era o transtorno daquele rapaz! Existem inúmeras psicoses que podem explicar o ocorrido...
Já é grave um especialista dizer em rede nacional algo do qual não se  tem certeza, e pior ainda, é quando a imprensa (sem menor conhecimento cientifico) fica repetindo a mesma coisa feito um papagaio.
Escutei outras "hipóteses" também, como por exemplo, que o rapaz matava preferencialmente meninas provavelmente porque foi rejeitado na infância por alguma garota, entre outras barbaridades.
Mas baseando-se em que são levantadas estas informações? Existem dados suficientes? Este rapaz fez um acompanhamento médico adequado para identificar de que transtorno ele sofria?
São apenas hipóteses! Não tem cabimento usar uma hipótese como verdade absoluta!
Para o psiquiatra forense do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, Daniel Martins de Barros, essas motivações dificilmente serão conhecidas porque se trata de um caso complexo, que envolve uma conjunção de fatores. Segundo ele, nem mesmo é possível afirmar que Wellington era portador de algum tipo de doença mental.
“Um ato não faz o diagnóstico, por mais estranho e pouco usual que ele seja. Uma atitude isolada não permite se fazer diagnóstico de nada”, disse o psiquiatra, em entrevista à Agência Brasil.
O que ganhamos com tanta "pseudo-ciência" na TV é que um sentimento de medo generalizado que se espalha pela nossa sociedade. Com isso, inúmeras fobias e preconceitos podem nascer ou aumentar a partir deste fato.
Não digo que devamos ignorar o que aconteceu àquelas crianças inocentes.
Sinceramente estou muito comovida com o que ocorreu, principalmente porque tenho duas filhas na mesma faixa etária daquelas crianças, e confesso que também senti um aperto no meu coração de mãe ao ter que mandá-las para a escola, afinal, eu tenho sim muito medo que algo um dia aconteça a elas (e isso é perfeitamente normal).
Contudo, o que não podemos é deixar que o medo e o desespero se espalhem por uma informação exageradamente explorada e sem devido embasamento científico.
Também deve-se impedir que este medo "trave" nossas vidas; deixando que o pânico nos deixe inertes.
Não podemos permitir que informações baseadas apenas em hipóteses e imersas em um sensacionalismo absurdo, faça com que o preconceito contra esquizofrênicos e demais portadores de patologias psiquiatrias se propague.
Todo este exagero atrai mais coisas ruins do que boas à população, em especial às pessoas que são mais sensíveis, como os esquizofrênicos, portadores de transtorno de ansiedade e personalidade, depressivos, sociofóbicos, etc.
Não estou aqui defendendo a alienação da sociedade, mas sim que a noticia que chega até nós passe pelo crivo do bom-senso: “Está informação é lógica?”, “Será que está correta?”, “Está sendo excessivamente explorada”? “Ela agrega algo de útil?”
Prefiro ser utópica e acreditar que a INFORMAÇÃO  COERENTE ainda é a maior arma contra o preconceito e a manipulação das massas.
Claro que esta tarefa depende de nossos governantes, mas também depende da população, que é co-responsável por tais mudanças.
Isoladamente não temos força para mudar o mundo, mas podemos fazer a nossa parte!


FONTE:

Pinto, F. O terceiro poder. Internet, In http://correrdapena.blogspot.com/2004/01/terceiro-poder-e-cidadania.html. Acesso em abril de 2011.

Cruz, P.E. Para psiquiatra, atitude isolada não é suficiente para diagnosticar doença mental. Entrevista concedida à Agência Brasil. Disponivel em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2011-04-09/para-psiquiatra-atitude-isolada-nao-e-suficiente-para-diagnosticar-doenca-mental . Acesso em abril de 2011.

 


4 comentários:

pedroska disse...

Nas eleições o povo muitas vezes votando sem opção e sendo esse voto obrigatório, secreto (de caráter duvidoso), tendo de escolher muitas vezes entre aqueles que não desejariam que fossem eleitos; e assim os eleitos, destinados a criarem leis, mas sem coragem, jogam mais um plebiscito em cima do povo para decidirem sobre leis (onerando mais ainda os cofres públicos). Sem a população saber quantas armas legalizadas existem, quantas pessoas com posse legalizada cometem crimes e matam, quantas armas que estão na mão dos criminosos ou que foram utilizadas nos assassinatos são armas oriundas de posses legalizadas.
E que muitos ditos políticos eleitos andam em seus carros blindados, com seguranças armados, com filhos estudando em escolas mais seguros, ou até no exterior. E como disse o secretário da segurança: "o caso do Realengo foi um caso isolado"; que não tem a ver com quantidade de armas legalizadas, antes tem a ver com o desvio do dinheiro da saúde pública, com a segurança a desejar, com a violência urbana, estrutura social e problema educacional.

Lyh Teixeira Mendes disse...

Muito bom o texto. Qto à psicóloga que falou ser esquizofrenia...ela foi infeliz em falar algo sem ter conteúdo suficiente para diagnóstico, fora que agora virou moda qq transtorno ser esquizofrenia...affff...rotulam e na (in)visibilidade, disseminam cada vez mais falsas informações e cada vez mais aparece gente na tv para falar preciptadamente ou se autoprmover. Tudo uma questão de EGO.

Como falei há uns dias sobre este assunto, vou repetir o que penso: "A sociedade cria seus próprios monstros e depois não tem onde guardá-los.As soluções para todos esses males para a maioria das pessoas ou está nas mãos de Deus ou no que poderia ter sido feito "SE" (...)-tudo o que poderia ter sido evitado com prevenções, fica agora em forma de questionamentos do que poderia ter sido. (redundante mas, uma verdade).As tragédias continuam como barbáries e manchetes!-palmas para nós!
Poderíamos fazer por onde, principalmente nós "da área de saúde mental" um trabalho qual também o governo investisse - pq não basta só querer...pois, querer, muitos querem, e muitos hoje, ainda se encontram desempregados.Boa vontade não falta como tb bons profissionais, mas, sem hipocrisia: "ninguém se alimenta da luz do sol". Então, precisamos de investimentos para podermos trabalhar com dignidade.

Leticia Lacerda disse...

Achei muito interessante os dois comentários acima, e diante deles, posso chegar a uma conclusão: nós somos responsáveis não só pelos péssimos governantes que temos, mas também pelo poder que é dado a outras pessoas e instituições, nos quais incluo a mídia apelativa e certas "celebridades" que acabam tornando-se questionáveis formadores de opinião.
Nosso país é repleto de preconceitos, ignorância e inércia por culpa da própria população.
É exatamente o que a Lyh escreveu: "criamos nossos próprios monstros, e depois não sabemos onde guardá-los".
Ouvimos música ruim, lemos pouco, assistimos programação que não agrega nada, votamos mal...
O professor Pasquale Cipro Neto afirmou na Bienal do Livro, anteontem, em São José dos Campos: “como o brasileiro pode ter alto padrão na escrita e leitura se o carro-chefe é assistir BBB?”
Bem, ele causou burburinhos com esta afirmação, mas ele está errado?
Nós escolhemos o que assistimos, ficamos parados diante do sensacionalismo da midia brasileira, e ainda permanecemos inertes diante do preconceito que se propaga por pura falta de informação (ou pela informação manipulada).
Temos sim o governante que merecemos e a mídia que merecemos, e isso porque não somos verdadeiros cidadãos!!! Não usamos da nossa cidadia, e quando digo CIDADANIA, uso-a no sentido mais amplo da palavra: desde o direito de reivindicar até o simples direito de mudar de canal, ou fechar o jornal, quando estamos diante de algo que nada nos agrega.

Forte abraços a todos!

memórias de um esquizofrênico disse...

Me lembro bem desse psiquiatra que afirmou que o atirador tinha esquizofrenia. Foi logo no dia seguinte, pela manhã. Também fiz as mesmas perguntas: como um psiquiatra pode diagnosticar uma pessoa assim tão rapidamente, sendo que a maioria precisa de várias consultas para diagnosticar e ainda podem errar?
Mas confesso que a cada dia que passa me sinto cada vez mais normal ao ler os noticiários e ver que os "ditos normais" estão cometendo atrocidades até piores do que essa de Realengo.