quarta-feira, 25 de julho de 2012

A Liga - Quebrando Paradigmas Psiquiatricos & Transtornos Psicológicos

Vídeos do programa "A Liga" da Band, que abordam o tema.
Vale a reflexão da Terapêuta Ocupacional Michele Jimenez do Hospital Psiquiátrico Francisca Júlia em São José dos Campos :


"O bom é saber que existem caminhos para isso ser diferente, e quais caminhos a gente vai trilhar para superar toda essa dificuldade. O limite da razão e da "loucura" pode ser um fio."



    "Aqui deitado nessa cama, eu fico olhando para o teto e pensando: "O que será que é a loucura?" Por mais que a gente perceba as patologias, as repetições de padrão e tudo mais, eu desconfio que a loucura maior está ai fora, porque aqui a gente encontra o que não se encontra lá fora, que é o carinho, o afeto, a preocupação que se tem com as pessoas..."

    (Lobão - Quebrando Paradigmas Psiquiátricos)


    A Liga - Quebrando Paradigmas Psiquiátricos 
                                                                                                                                                                                                                                                                                                    



                                                                                                A Liga  - Transtornos Psicológicos  

                                       
     


    sábado, 25 de fevereiro de 2012

    MACONHA

     
    “Legalize já! Legalize já!
    Porque uma erva natural não pode te prejudicar”
    Planet Hemp



    Será que a letra do cantor Marcelo D2 está mesmo correta?
    Antes de levantar bandeiras de A FAVOR ou CONTRA, o mais sensato é entender mais sobre o assunto, e então, tirar suas próprias conclusões.
    Mas afinal, maconha faz bem à saúde? É prejudicial? Causa dependência? Pode ser utilizada como remédio? 

    Em entrevista à revista Veja, o doutor Ivan Mauro Braun, médico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP e autor do livro Drogas – Perguntas e Respostas (MG Editores) afirma: "Não nos surpreende que a maconha seja a droga mais consumida no Brasil e nos países vizinhos. O principal problema dessa droga, sem dúvidas, é a sua aceitação social. 
    Essa característica aumenta o uso de qualquer substância. O cigarro já foi visto como algo positivo socialmente, mas hoje em dia não é mais. 
    Além da aceitação social, o fácil acesso e o baixo custo da droga também contribuem para esse quadro.
    Muitas pessoas se iludem em relação à maconha, afirmando que ela é benéfica à saúde e não faz tão mal quanto o tabaco. Não é verdade.  A maconha é tão maléfica quanto o tabaco, podendo provocar câncer, problemas cognitivos e respiratórios. Quebrar esses mitos sobre a droga é algo fundamental para prevenir seu consumo. E provoca dependência1."
    Embora não exista consenso quanto ao fato de a maconha causar ou não dependência, existe a certeza de que a maconha é a porta de entrada para outras drogas, como a cocaína e o crack.

    De acordo com relatório divulgado em 28/02/2012 pela Junta Internacional de Fiscalização a Entorpecentes (Jife), órgão ligado à (ONU), a maconha continua sendo a droga mais consumida na América do Sul entre pessoas de 15 a 64 anos. Segundo o relatório, no ano de 2009, 3% da população deste continente fazia uso da droga, o que corresponde a aproximadamente 7,5 milhões de pessoas.
    No Brasil, segundo os novos dados, 20% da maconha consumida tem origem doméstica (cultivo próprio), e os 80% entram no país pelo Paraguai.
    O relatório ainda indica que, em 2010, as autoridades brasileiras apreenderam mais de 155 toneladas da droga1 .

    CONCEITOS BÁSICOS:

    Maconha é um nome de origem africana do cânhamo; planta conhecida desde os tempos mais remotos por suas propriedades medicinais e por suas fibras empregadas na fabricação de cordas, tapetes, tecidos etc. Apresenta grande variedade de nomes conforme a região em que é consumida.2
    Assim, é denominada de diamba, riamba ou liamba entre africanos; de marijuana entre hispano-americanos; fumo-de-caboclo ou fumo de angola entre os nordestinos; haxixe (que é a maconha na forma de resina) no norte da África e Oriente próximo. No Brasil recebe o nome de maconha. A planta é chamada cientificamente de Cannabis sativa.
    A maconha sempre esteve ligada à religião e à medicina. As primeiras notícias que se tem sobre o uso da droga são em cerimônias religiosas na China ou no tratamento de doenças. Hoje a droga ainda apresenta funções na medicina, como no tratamento da epilepsia e no abrandamento dos efeitos colaterais no tratamento do câncer, como vômitos e náuseas. Além das atuais funções medicinais, a droga ainda é considerada sagrada em algumas religiões de países da América Central e Ásia.
    Conforme Woelfert, a maconha apresenta uma série de componentes com efeitos diversos, sendo a mais consumida das drogas ilícitas, e geralmente é porta de entrada para outras substâncias psicotrópicas2.


    CONTEXTO HISTÓRICO DA MACONHA NO BRASIL E NO MUNDO


    Até o início do século XX, a maconha era considerada em vários países, inclusive no Brasil, um medicamento útil para vários males. Mas também já era utilizada para fins não-médicos por pessoas que fazem uso recreativo da mesma. A planta foi proibida em praticamente todo o mundo ocidental, nos últimos 50 a 60 anos.


    USOS MEDICINAIS

    Nos séculos passados, a maconha era usada, na China, como anestésico, analgésico, antidepressivo, antibiótico e sedativo. Já foi utilizada também em casos de prisão de ventre, malária, reumatismo e dores menstruais. No século XIX, alguns povos começaram a utilizá-la no tratamento da gonorréia e angina.

    Mas, atualmente, graças às pesquisas recentes, a maconha (ou substâncias dela extraídas) é reconhecida como medicamento em pelo menos duas condições clínicas.
    1) reduz ou abole náuseas e vômitos produzidos por medicamentos anticâncer
    2) tem efeito benéfico em alguns casos graves de epilepsia (doença que se caracteriza por convulsões ou “ataques”).

    Por essa razão, algumas pessoas pedem para que ela seja legalizada a fim de ser utilizada como medicamento no tratamento de outras doenças, além do câncer e da epilepsia, como na AIDS (combate as náuseas e estimula o apetite), glaucoma (alivia a pressão ocular), e esclerose múltipla (diminui espasmos musculares)3.



    TETRAIDROCANABINOL (THC)

    Estrutura Química do THC
    O THC (tetraidrocanabinol) é uma substância química fabricada pela própria maconha, sendo o principal responsável pelos efeitos desta. Assim, dependendo da quantidade de THC presente (o que pode variar de acordo com solo, clima, estação do ano, época de colheita, tempo decorrido entre a colheita e o uso), a maconha pode ter potência diferente, isto é, produzir mais ou menos efeitos.
    Essa variação nos efeitos depende também da própria pessoa que fuma a planta, pois todos sabem que há grande variação entre as pessoas, e de fato, ninguém é igual a ninguém! Assim, a dose de maconha insuficiente para um pode produzir efeito nítido em outro e até forte intoxicação em um terceiro3.


    QUAIS SÃO OS EFEITOS DA MACONHA?

    Para facilitar o entendimento, vamos dividir os efeitos que a maconha produz sobre o homem em :

    1)       FÍSICOS (ação sobre o próprio corpo ou partes dele) e
    2)       PSÍQUICOS (ação sobre a mente). 

    Esses efeitos sofrerão mudanças de acordo com o tempo de uso, ou seja, os efeitos causados são:

    A)    AGUDOS (isto é, quando decorrem apenas algumas horas após fumar),
    B)   CRÔNICOS (conseqüências que aparecem após o uso continuado por semanas, ou meses ou mesmo anos).

    Os efeitos físicos agudos são poucos4

    1)       Olhos avermelhados (o que em linguagem médica se chama hiperemia das conjuntivas);
    2)       Boca fica seca (e lá vai outra palavrinha médica antipática: xerostomia – é o nome difícil que o médico dá para boca seca);
    3)       Taquicardia: o coração dispara, podendo chegar a 120 a 140 ou até mesmo mais (o normal é de 60 a 80 batimentos por minuto);
    4)       Aumento do apetite (que entre os usuários, recebe o nome de “larica”);
    5)       Sonolência; 

    Os efeitos psíquicos agudos dependerão da qualidade da maconha fumada e da sensibilidade de quem fuma. Para uma parte das pessoas, os efeitos são:

    1)       Sensação de bem-estar acompanhada de calma e relaxamento;
    2)       Sentir-se menos fatigado;
    3)       Vontade de rir (hilariedade). 

    Para outras pessoas, os efeitos são mais para o lado desagradável: sentem angústia, ficam aturdidas, temerosas de perder o controle mental, trêmulas, suadas. É o que comumente chamam de “má viagem” ou “bode”.
    Há, ainda, evidente perturbação na capacidade da pessoa em calcular tempo e espaço e um prejuízo de memória de curto prazo e atenção.

    Assim, sob a ação da maconha, a pessoa erra grosseiramente na discriminação do tempo, tendo a sensação de que se passaram horas quando na realidade foram alguns minutos, ou um túnel com 10m de comprimento pode parecer ter 50 ou 100m.
    Quanto aos efeitos na memória, eles se manifestam principalmente na chamada memória a curto prazo, ou seja, aquela que nos é importante por alguns instantes.
    Dois exemplos verídicos ajudam a entender esse efeito: uma telefonista de um hotel (que ouvia um dado número pelo fone e no instante seguinte fazia a ligação), quando sob ação da maconha, não era mais capaz de lembrar-se do número que acabara de ouvir. O outro caso é o de um bancário que lia em uma lista o número de um documento que tinha de retirar de um arquivo, e que sob ação da maconha já havia esquecido o número quando chegava a frente ao arquivo.

    Pessoas sob esses efeitos não conseguem, ou melhor, não deveriam executar tarefas que dependem de atenção, bom senso e discernimento, pois correm o risco de prejudicar outros e/ou a si próprio. Como exemplo disso: dirigir carro ou motos ou operar máquinas potencialmente perigosas.

    Aumentando-se a dose e/ou dependendo da sensibilidade, os efeitos psíquicos agudos podem chegar até as alterações mais evidentes, com predominância de delírios e alucinações4

    Obs: Delírio é uma manifestação mental pela qual a pessoa faz um juízo errado do que vê ou ouve; por exemplo, sob ação da maconha uma pessoa ouve a sirene de uma ambulância e julga que é a polícia que vem prendê-la; ou vê duas pessoas conversando e pensa que ambas estão falando mal ou mesmo tramando um atentado contra ela. Em ambos os casos, essa mania de perseguição (delírios persecutórios) pode levar ao pânico e, conseqüentemente, a atitudes perigosas (“fugir pela janela”, agredir como forma de “defesa” antecipada contra a agressão que julga estar sendo tramada). Alucinação é uma percepção sem objeto, isto é, a pessoa pode ouvir a sirene da polícia ou ver duas pessoas conversando quando não existe nem sirene nem pessoas. As alucinações podem também ter fundo agradável ou terrificante.


    Os efeitos físicos crônicos da maconha já são de maior gravidade. De fato, com o uso continuado, vários órgãos do corpo são afetados.
    Os pulmões são um exemplo disso. Não é difícil imaginar como ficarão esses órgãos quando passam a receber cronicamente uma fumaça que é muito irritante, dado ser proveniente de um vegetal que nem chega a ser tratado como o tabaco comum. Essa irritação constante leva a problemas respiratórios (bronquites), aliás, como ocorre também com o cigarro comum. Mas o pior é que a fumaça da maconha contém alto teor de alcatrão (maior mesmo que na do cigarro comum) e nele existe uma substância chamada benzopireno, conhecido agente cancerígeno; ainda não está provado cientificamente que o fumante crônico de maconha está sujeito a adquirir câncer dos pulmões com maior facilidade, mas os indícios, em animais de laboratório, de que assim pode ser são cada vez mais fortes. 

    Outro efeito físico adverso (indesejável) do uso crônico da maconha refere-se à testosterona. Esta é o hormônio masculino que, como tal, confere ao homem maior quantidade de músculos, voz mais grossa, barba, e também é responsável pela fabricação de espermatozóides pelos testículos. Já existem muitas provas de que a maconha diminui em até 50 a 60% a quantidade de testosterona. Conseqüentemente, o homem apresenta um número bem reduzido de espermatozóides no líquido espermático (em medicina essa diminuição chama-se oligospermia), o que leva à infertilidade. Assim, o homem terá mais dificuldade de gerar filhos. Esse é um efeito que desaparece quando a pessoa deixa de fumar a planta. 
     
    Uma pesquisa realizada na Queen's University,no Canadá, mostrou evidências de que o consumo de maconha pode afetar de forma negativa, o desempenho sexual masculino. Isso porque seu uso pode causar problemas de ereção.
    Esse resultado vai além do conhecimento já disseminado de que a maconha pode afetar certos receptores no cérebro. Segundo Rany Shamboul, pós doutorando do Departamento de farmacologia e toxicologia, esses receptores também existem no pênis.
    O consumo de maconha pode ter um efeito contrário sobre esses receptores do pênis, tornando mais difícil para um homem alcançar e manter uma ereção.4

    Existem ainda os efeitos psíquicos crônicos produzidos pela maconha.

    Sabe-se que seu uso continuado interfere na capacidade de aprendizagem e memorização e pode induzir a um estado de amotivação, isto é, não sentir vontade de fazer mais nada, pois tudo fica sem graça e sem importância. Esse efeito crônico da maconha é chamado de síndrome amotivacional.
    Além disso, a maconha pode levar algumas pessoas a um estado de dependência, isto é, elas passam a organizar sua vida de maneira a facilitar seu vício, e tudo o mais perde eu real valor.

    Finalmente, há provas científicas de que se o indivíduo tem uma doença psíquica qualquer, mas que ainda não está evidente (a pessoa consegue “se controlar”) ou a doença já apareceu, mas está controlada com medicamentos adequados, tem seu quadro agravado com o uso da maconha.

    De maneira mais simples, podemos afirmar que a maconha ou faz surgir a doença, isto é, a pessoa não consegue mais “se controlar”, ou neutraliza o efeito do medicamento e ela passa a apresentar novamente os sintomas da enfermidade.

    Esse fato tem sido descrito com freqüência na doença mental chamada esquizofrenia. Em um levantamento feito entre estudantes do ensino fundamental e do ensino médio das dez maiores cidades do país, em 1997, 7,6% declararam que já haviam experimentado maconha e 1,7% declararam fazer uso dela pelo menos seis vezes por mês4.



    QUAL O MECANISMO DE AÇÃO DA MACONHA NO CÉREBRO?


    O THC é metabolizado no fígado gerando um metabólito (produto da metabolização da substância) mais potente que ele próprio. Além disso, o THC é muito lipossolúvel (solúvel em lipídios – gordura, e não em água) ficando armazenado no tecido adiposo. Essas características do THC levam a um prolongamento do efeito deste no organismo.
    Quando fumada, a maconha atinge seu efeito entre zero e dez minutos e tem seu pico de ação após 30 minutos do consumo por se concentrar no cérebro. Após 45 a 60 minutos do consumo da substância seus efeitos são atenuados. Pela liberação do THC por meio do tecido adiposo ser lenta, ele aparece na urina de semanas há meses após o último uso5.

    Imagem: Blog Neurotransmissores, Doenças Mentais e Drogas


    Para compreender melhor qual a ação do THC, este link apresenta uma animação em flash feita pela Unifesp – EPM, que ilustra bem o mecanismo de ação da maconha no Sistema Nervoso Central: http://www.virtual.epm.br/material/depquim/10flash.htm



    MACONHA SINTÉTICA

    Segundo Roger A. Nicoll e Bradley E. Alger, ainda que seu repertório de efeitos não esteja totalmente claro, o conhecimento gerado sobre os endocanabinóides começa a ajudar pesquisadores a conceber terapias que aproveitem as propriedades terapêuticas da maconha. Em alguns países, por exemplo o Canadá, vários análogos sintéticos do THC já estão disponíveis comercialmente, como a nabilona e o dronabinol. Ambos combatem a náusea causada pela quimioterapia; o dronabinol também estimula o apetite em pacientes com aids. Outros canabinóides aliviam a dor provocada por uma infinidade de doenças. Além disso, um antagonista do CB1 - molécula que bloqueia o receptor e o torna inativo - funcionou em alguns testes clínicos para o tratamento de obesidade.
    Uma forma de contornar tais problemas é realçar o papel desses mensageiros no próprio organismo. Se a estratégia for bem-sucedida, os endocanabinóides poderão ser recrutados apenas em circunstâncias e locais necessários, sem os riscos associados à ativação geral e indiscriminada de seus receptores. Com esse objetivo, Daniele Piomelli e colegas estão desenvolvendo drogas que impedem que a anandamida seja degradada, prolongando seus efeitos no alívio da ansiedade.
    Em algumas regiões do sistema nervoso a anandamida parece ser o endocanabinóide mais abundante; em outras predomina o 2-AG.  Compreender melhor as vias químicas que sintetizam cada um deles deverá ajudar no desenvolvimento de drogas que afetem seletivamente um ou outro receptor. Além disso, já se sabe que endocanabinóides não são produzidos quando os neurônios disparam apenas uma vez, mas somente após uma rajada de cinco até dez disparos. Uma possibilidade, portanto, seria a criação de fármacos que modificassem a taxa de disparo e, logo, a liberação do endocanabinóide. Essa idéia já tem precedente: os agentes anticonvulsivantes, que suprimem a hiperatividade neuronal subjacente às crises epiléticas sem afetar outras regiões com atividade normal.  
    Abordagens indiretas poderiam ter como alvo processos que regulam os endocanabinóides. A dopamina, neurotransmissor deficiente nas pessoas com doença de Parkinson, também é fundamental nos sistemas de prazer. Drogas como a nicotina e a morfina produzem seus efeitos, em parte, estimulando sua liberação em diversas regiões. Entretanto, a dopamina estimula a liberação dos endocanabinóides, e diversos pesquisadores identificaram dois outros neurotransmissores - glutamato e acetilcolina - que fazem o mesmo. De fato, os endocanabinóides podem ser a fonte de uma série de efeitos antes atribuídos a outras moléculas. Em vez de mirar diretamente o sistema endocanabinóide, poderiam ser criadas drogas com ação sobre esses mensageiros convencionais. Diferenças regionais em sistemas neurotransmissores devem ser exploradas para assegurar que os endocanabinóides sejam liberados somente onde são necessários e em quantidades apropriadas. 
    De maneira notável, os efeitos da maconha revelaram os endocanabinóides ao mundo. O receptor CB1 parece estar presente em todos os vertebrados, o que sugere que sistemas canabinóides endógenos existem há cerca de 500 milhões de anos. Durante esse tempo eles se adaptaram para desempenhar numerosas funções, ainda que freqüentemente sutis. Aprendemos que eles não afetam o medo, mas o esquecimento dele; não alteram a capacidade de comer, mas o apetite por alimento, e assim por diante. Sua presença em regiões associadas ao comportamento motor complexo, à cognição, à aprendizagem e à memória sugere que muita coisa resta a descobrir sobre os usos que a evolução fez dessas moléculas. 
    Embora promissoras, todas essas drogas têm efeitos múltiplos porque não são específicas. Ao contrário, agem em toda parte, causando reações adversas como tontura, sonolência, dificuldade de concentração e distúrbios cognitivos6.
    Apesar dos inúmeros estudos em andamento, ainda é complexo isolar os efeitos maléficos da maconha, e assim, usufruir SOMENTE os benefícios da maconha.
    Justamente esta dificuldade em prever quais são estes efeitos múltiplos e isolar os efeitos indesejados, o que gera os efeitos colaterais, é que no momento, o uso da Cannabis sativa como medicamento é algo muito controverso.

    Roger A. Nicoll é professor de farmacologia da Universidade da Califórnia em São Francisco. Bradley E. Alger leciona fisiologia e psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland.

      
    USAR MACONHA É CRIME?

    No Brasil, não existe mais a pena de prisão ou reclusão para o consumo, armazenamento ou posse de pequena quantidade de drogas para uso pessoal, inclusive maconha. Também não há pena de prisão para quem "para seu consumo pessoal, semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena quantidade de substância" capaz de causar dependência (inclusive a cannabis sativa). O artigo 28 da lei nº 11.343/2006 7de 23 de agosto de 2006 prevê novas penas para os usuários de drogas. As penas previstas são:

    •  Advertência sobre os efeitos das drogas;
    •  Prestação de serviços à comunidade ou
    •  Medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.
    A mesma lei (artigo 28, § 2º) estabelece o critério para o juiz avaliar se uma quantidade se destina ao consumo ou não. O juiz deve considerar os seguintes fatores: o tipo de droga (natureza), a quantidade apreendida, o local e as condições envolvidas na apreensão, as circunstâncias pessoais e sociais, a conduta e os antecedentes do usuário8.
    Apesar do critério ser subjetivo e depender da interpretação do juiz, não há dúvida de que um ou dois cigarros de maconha, por exemplo, representam uma quantidade destinada ao consumo pessoal.


    VÍDEOS: SIM? NÃO? CONTRA? A FAVOR?


    MACONHA – OS EFEITOS DA DROGA NO ORGANISMO (PELO HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN)






    REPORTAGEM: EFEITOS DA DROGA MESMO APÓS O PERIODO DE ABSTINÊNCIA





    REPORTAGEM: FHC DEFENDE A REGULAMENTAÇÃO DA MACONHA, E GERA POLÊMICA



    ENTREVISTA NO RODA VIVA: DRAUZIO VARELLA FALA SOBRE A LEGALIZAÇÃO DA MACONHA:






    LIVRETO:

    Aqui você pode baixar o livreto sobre Maconha e outras drogas, produzido pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID), que funciona no Departamento de Psicobiologia da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo):   Link


    FONTES:

    1) Maconha continua sendo droga mais consumida na América do Sul. Revista Veja On Line. Suplemento Saúde. São Paulo, 28 de fevereiro de 2012. Disponivel em: http://veja.abril.com.br/noticia/saude/maconha-continua-sendo-droga-mais-consumida-na-america-do-sul . Acesso em fevereiro de 2012.

    2) WOELFERT, A.J.T.: Introdução à medicina legal. 1ª ed. Editora da ULBRA Porto Alegre, 2003.

    3) Divisão Estadual de Narcóticos – DENARC – Maconha.  Curitiba, 2012. Disponível em: http://www.denarc.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=31 . Acesso em fevereiro de 2012.

    4) Unidade de Pesquisa em Àlcool e Drogas –  UNIAD – Uso de maconha aumenta o risco de problemas de ereção. São Paulo, 2012. Disponível em: http://www.uniad.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=7799:uso-de-maconha-aumenta-risco-de-problemas-de-erecao&catid=29:dependencia-quimica-noticias&Itemid=94. Acesso em fevereiro de 2012.

    5) MINISTÉRIO DA JUSTICA - OBID - Observatório Brasileiro de Informações Sobre Drogas: Maconha. Brasília, 2012. Disponível em: http://www.obid.senad.gov.br/portais/OBID/conteudo/index.php?id_conteudo=11294&rastro=INFORMA%C3%87%C3%95ES+SOBRE+DROGAS%2FTipos+de+drogas/Maconha#mecanismo. Acesso em fevereiro de 2012.

    6) NICOLL, R.A., BRADLEY, E.A. Produzidos pelo cérebro, os endocanabinóides são semelhantes ao princípio ativo da maconha e estão associados à extinção de memórias e ao controle da dor e da ansiedade. Revista Corpo e Mente. Ed 165. São Paulo, 2006. Disponível em: http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/barato_natural.html
    Acesso em fevereiro de 2012.

    7) Presidência da República Federativa do Brasil. Lei nº 11.343/2006].

    8) Presidência da República Federativa do Brasil. Lei nº 11.343/2006 - ver artigo 28, § 2º.



    MACONHA: PERGUNTAS E RESPOSTAS

     
     Abaixo, algumas questões respondidas pela equipe do CEBRID - Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas da Unifesp - EPM, a respeito da Maconha:


    • O que é a maconha? 
     A maconha é o nome dado no Brasil ao vegetal Cannabis sativa, também conhecida popularmente como: marijuana, fumo, bagulho, manga rosa, liamba, mulatinho. Os primeiros relatos de sua presença no Brasil datam do século XVIII para a produção de fibras. No entanto acredita-se que a planta já existe há mais tempo utilizada pelos escravos. A planta Cannabis sativa produz mais de 400 substâncias químicas. Uma delas é o THC (tetrahidrocanabinol ) que é a principal responsável pelos efeitos da maconha.

    • Como a maconha é utilizada? 
    As flores e folhas secas da maconha podem ser fumadas ou ingeridas, sendo que a forma mais comum é a fumada. Nesse primeiro caso a maconha é absorvida por via pulmonar e atinge o Sistema Nervoso Central (cérebro) em apenas alguns segundos e, utilizada por via oral sua absorção é lenta, de 30 a 60 minutos.

    • O que é hashishe (ou hachiche)? e skank (skunk)? 
    O hashishe é uma forma concentrada da maconha, com a forma de uma bolota. A pessoa pode engolir a bolota ou pode fuma-la. O hashishe é bem mais potente que as folhas e flores da maconha. O skunk nada mais é do que uma variedade da planta que foi selecionada para produzir uma quantidade bem maior de THC. É claro, portanto, que o skunk é mais potente que a maconha comum.

    • Por que as pessoas usam Maconha?
    Não podemos dizer que todos que fumam maconha querem sentir as mesmas coisas, mas alguns dos efeitos buscados podem ser: Tranqüilidade, pois muitos do que usam maconha se sentem mais calmos e relaxados; Diversão e descontração, a pessoa ri por qualquer motivo; Busca de um maior prazer sexual (isto não ocorre, na verdade); Maior sensibilidade ao som (ficar curtindo uma música por exemplo), Maior sensibilidade ao gosto (a famosa "larica"); Ficar "morgando", que se caracteriza pela vontade de não fazer nada; Ficar "viajando" em algum objeto, pois a sensibilidade visual fica aumentada.

    • Quantas pessoas usam Maconha?
    Muita gente no mundo inteiro. Por exemplo em um levantamento de 1999 sobre uso de drogas na população do Estado de São Paulo mostrou que 6,4% já havia experimentado a maconha. Em quatro levantamentos de consumo entre os estudantes das 10 maiores capitais do Brasil revelou que 7,6% (em 1997) dos estudantes a haviam experimentado pelo menos uma vez.

    • O que a maconha faz no corpo após uma dose (efeitos físicos agudos)?
     Os efeitos físicos agudos não são muitos : os olhos ficam ligeiramente avermelhados (hiperemia das conjuntiva ), a boca fica seca (xerostomia) e o coração dispara (os batimentos, de 60 a 80 por minuto, podem chegar a mais de 120).

    • O que a maconha faz no corpo com o uso contínuo (efeitos físicos crônicos)? 
    Os efeitos crônicos da maconha são mais graves. No homem o uso prolongado de maconha pode provocar uma diminuição da testosterona (hormônio que confere ao homem maior quantidade de músculos, a voz mais grossa, barba, também é responsável pela fabricação do espermatozóides). Na mulher pode trazer alterações hormonais chegando até a inibição da ovulação. O uso contínuo pode afetar também os pulmões (a fumaça é muito irritante), sendo comum os problemas respiratórios, principalmente a bronquite. Animais de laboratório expostos cronicamente à maconha passam a apresentar maior incidência de câncer do que animais controles.

    • O que a maconha faz com a mente após uma dose (efeitos psíquicos agudos)?            
    Os efeitos psíquicos agudos dependerão da qualidade da maconha fumada e da sensibilidade de quem fuma. Para uma parte das pessoas, os feitos correspondem a uma sensação de calma e relaxamento, menos cansaço e vontade de rir. Para outras, ao contrário, os efeitos são desagradáveis: tremor, sudorese, sensação de angústia, medo de perder o controle mental (bad trip/ má viagem, bode).  
    A percepção do tempo e do espaço ficam prejudicadas. Assim, uma pessoa ao dirigir após ter usado maconha, pode facilmente calcular errado na hora de fazer uma ultrapassagem, causando assim um acidente. Há também uma perda da memória que, iremos abordar em um outro tópico.

    • O que a maconha faz com a mente depois de um período de uso crônico (efeitos psíquicos crônicos)?
    Os efeitos psíquicos crônicos da maconha, provocado pelo uso continuado, interferem na capacidade de aprendizagem e de memorização, podendo induzir a um estado de diminuição da motivação. Nesse caso, a pessoa não sente vontade de fazer mais nada, tudo parece ficar sem graça e sem importância. Há também provas científicas de que, se o usuário tem uma doença psíquica, mas que ainda está "sob controle", ou já se manifesta, mas está controlada por medicamento, a maconha piora o quadro, pois ela pode anular o efeito do medicamento ou ser o "estopim" que faria a doença se manifestar.   

    • A maconha afeta o desempenho na escola?
     Imagine uma pessoa que fumou maconha e vai assistir uma aula de matemática. Pense na dificuldade que vai ser para essa pessoa organizar ás idéias de uma forma lógica já que, como vimos, a maconha afeta a atenção, concentração, motivação e memória. Com certeza o desempenho na escola ou em quaisquer outras atividades que exijam esses quesitos vão ser prejudicadas.  

    • A maconha leva ao uso de outras drogas?
     Não necessariamente. O que ocorre na verdade (e que leva a essa noção equivocada de que a maconha seria a porta de entrada para outras drogas) é uma hierarquia na experimentação e no uso por parte das pessoas. Raramente alguém começa a usar direto cocaína sem ter pelo menos experimentado alguma bebida alcoólica ou cigarro (que são drogas legais mas que, podem também causar sérios problemas). Se uma pessoa tiver vontade de provar mais alguma coisa, é provável que ela experimente, dentro das drogas ilegais, primeiro a maconha, por ser mais barata e disponível. Mas não há nada de intrínseco (que pertença á ela) nessa substância que obrigue a pessoa a depois usar algo mais pesado e assim sucessivamente.

    • É possível reconhecer alguém que usa Maconha ?
    Às vezes. Por exemplo, quando a pessoa tem os olhos avermelhados e a boca seca. Mas muitas vezes uma pessoa pode ter uma ou mesmo as duas coisas, sem nunca ter fumado maconha.  

    • A maconha pode ser usada como remédio?
    Apesar de seus efeitos tóxicos e sua ilegalidade de consumo no Brasil, há relatos até antigos dos efeitos terapêuticos da maconha .Nos dias de hoje a maconha é reconhecida como medicamento em pelo menos 3 condições clínicas : Reduz ou abole as náuseas e vômitos produzidos por medicamentos anticâncer; Tem efeitos benéficos em alguns casos de epilepsia (doença que se caracteriza por convulsões ou ataques); e, Pode melhorar o estado geral de doentes de AIDS (mas não cura a doença).  

    • A pessoa pode usar maconha quando está grávida?
    Nenhuma substância que cause algum tipo de intoxicação deve ser usada pela mulher quando estiver grávida (e no período de amamentação), pois isso prejudica o feto que está em desenvolvimento. Assim como o cigarro, álcool, remédios (que não receitados pelo médico), a maconha e outras drogas não podem ser usadas.  

    • A maconha causa dependência?
    Algumas pessoas podem desenvolver dependência e outras não. Isto vai depender da pessoa e seus problemas e do tempo e quantidade de uso. Infelizmente não podemos saber quais são essas pessoas pois, a dependência está ligada a uma série de fatores que vão variar muito de pessoa para pessoa.

    • As pessoas podem parar de usar maconha?
    Sim. Algumas pessoas param sozinhas, outras precisam de ajuda, mas de uma forma ou de outra o importante é saber que, se a pessoa quiser ela pode parar.

    • A maconha causa tolerância?
    O uso contínuo da maconha pode levar ao fenômeno de tolerância. Por exemplo: se antes a pessoa com 1 baseado ficava "legal", agora ela precisa fumar mais para ficar "legal" do mesmo jeito. No entanto, a tolerância no caso da maconha demora muito para acontecer.

    • O que acontece se uma pessoa for surpreendida usando maconha?
    A maconha no Brasil é considerada um droga ilícita e, como tal, se uma pessoa estiver usando maconha e for surpreendida ( mesmo que não esteja causando nenhuma tipo de problema ou dano a alguém) ela vai ser punida de acordo com a lei.

    • O que acontece se uma pessoa for surpreendida levando maconha para usar junto com amigos?
    Como foi dito acima, o problema é que não interessa se a pessoa vai usar em casa com um amigo para ficar curtindo um som, ou se ela vai usar com os amigos numa festa, situações estas que aparentemente não estariam prejudicando a ninguém. A maconha é uma droga ilícita e a pessoa que a estiver levando para usar com amigos poderá ser enquadrada como traficante pela nossa lei que, nesses casos é de um rigor extremo, colocando um usuário na mesma condição de um traficante de verdade.

    • A maconha afeta a memória?
    Sim. A maconha prejudica principalmente a memória a curto prazo; exemplificando: Vamos supor que alguém esteja em casa com um amigo e vão pedir uma pizza, ela olha o telefone na caderneta e, quando começa a discar já se esqueceu o número que acabou de olhar, tendo que consultar novamente a caderneta. Obviamente que nesse caso não há grandes prejuízos, mas, se a pessoa estivesse em seu trabalho ou estudando e necessitasse de uma atenção maior, com certeza estaria tendo problemas.

    • A maconha afeta o desempenho sexual?
    A maconha não afeta diretamente o desempenho sexual mas, como já foi visto ela trás tanto para o homem quanto para a mulher alterações hormonais que podem resultar em problemas. Além do mais, a maconha produz tantas alterações mentais que pode tirar a concentração necessária durante o ato sexual.


    FONTE:

    Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – CEBRID - Departamento de Psicobiologia – Unifesp / EPM. São Paulo, 2012. Disponível em: http://www.unifesp.br/dpsicobio/cebrid/quest_drogas/maconha.htm#15 . Acesso em fevereiro de 2012.