sábado, 19 de novembro de 2011

DEPENDÊNCIA QUIMICA



O PODER DE FAZER ESCOLHAS


Todos nós temos o direito de fazer escolhas.
Esse direito é considerado, por muitos, um dos mais fundamentais que uma sociedade pode oferecer.
Este tem sido um dos pilares dos movimentos sociais e políticos que o Brasil vivenciou nos últimos 20 anos: O DIREITO DE FAZER ESCOLHAS.
Mas existe real escolha quando não se tem informação?
Em que devem ser pautadas nossas decisões? Em preconceitos e mitos sobre determinados assuntos ou em fatos científicos e estatísticas bem feitas?
Porque a escolha que se baseia em “achismo” pode nos induzir ao erro, ela pode tornar-se uma manipulação travestida de escolha.
Além disso, as escolhas são muito pessoais. O que pode ser bom para um, pode ser ruim para o outro. Somos diferentes; temos histórias de vidas diferentes, experiências, expectativas e visões do mundo diferentes. Fisicamente e fisiologicamente também não somos iguais. O que é mortal para uns, pode ser inofensivo para outros.
Particularmente no que se refere às drogas, os efeitos variam de pessoa para pessoa, já que  esta ação depende basicamente de três fatores: da droga, do usuário e do meio ambiente.
Mas qual a melhor decisão? Arriscar no “comigo isso não acontece” ou evitar riscos? Bem, esta é uma decisão pessoal.
É importante que todos nós possamos exercer nosso direito de saber a verdade dos fatos numa área dominada por crenças e preconceitos, e assim, decidir de forma racional e bem embasada, qual decisão tomar.


Para facilitar a compreensão, a postagem sobre o uso de drogas no Brasil será dividida em duas partes:
- Na primeira, serão apresentados dados sobre a dependência química no Brasil.
- Na segunda (que será segmentada em diferentes postagens), serão apresentadas algumas drogas ilegais de maior consumo no Brasil e o álcool.


DADOS SOBRE A DEPENDÊNCIA QUÍMICA NO BRASIL


Em junho deste ano, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) divulgou um documento que reúne dados estatísticos e análises de tendência sobre a situação do mercado das drogas ilegais em todo o mundo.
Segundo o último relatório da ONU, o Brasil está entre os países que mais consome drogas no mundo, sendo o maior consumidor entre as Américas do Sul, América Central e Caribe.



COCAÍNA

Só no país, são mais de 900 mil usuários de cocaína.
Entre estudantes universitários no Brasil, a prevalência anual do uso de cocaína foi de
3% dos estudantes de 18 a 35 anos. O uso de cocaína foi muito menor entre estudantes mulheres que entre homens.
Um preocupante relatório publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo em edição de julho de 2009, trouxe um alerta importante para a saúde pública: o aumento do número de casos femininos internados por uso de cocaína no Estado de São Paulo. O número cresceu incríveis 91%!
É evidente que o mercado global de cocaína tem sofrido abalos com os esforços internacionais no combate à droga, porém isso tem gerado um grande impacto social dos crimes relacionados a drogas, o que revela a importância de se trabalhar paralelamente saúde e segurança pública.



ECTASY

Se por um lado, o consumo de drogas como Cocaína e Maconha tem o número de usuários tendendo à estabilização, ou até ao declinio em alguns países, por outro lado, houve um aumento no uso e na produção de drogas sintéticas (anfetaminas, metanfetamina e ecstasy) nos países em desenvolvimento.
Um dado curioso revelado pelo relatório do UNODC é que para essas drogas, há uma inversão do mercado: enquanto os maiores produtores são países desenvolvidos, são os países em desenvolvimento que vem registrando uma tendência de maior consumo ao longo do tempo. 
No Brasil, a prevalência anual do uso de “ecstasy” segundo pesquisa nacional feita entre estudantes universitários em 2009 foi de 3,9%, claramente excedendo estimativas do UNODC para populações em geral, em torno de 0,2%.

   
MACONHA


A produção e o consumo das principais drogas tradicionais estão em queda ou controlados no mundo, mas há sinais do aumento do uso de novas substâncias sintéticas, principalmente em países em desenvolvimento.
Contudo, a maconha ainda se mantém como a droga ilegal mais consumida no mundo. O relatório estima que entre 130 milhões e 190 milhões de pessoas consumiram a droga no último ano.
Segundo o estudo da UNODC, o Brasil é o país da América Latina que registrou maior aumento no consumo de maconha desde 2005, passando de 1% da população adulta em 2001 para 2,6% em 2005.
Apesar do salto de 160% entre estes anos, agora seu consumo tem se estabilizado (mas não diminuído). Estima-se que no Brasil existam cerca de três milhões os usuários de maconha.

Outro levantamento realizado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) sobre o uso da maconha no Brasil, em 2005, revelou que 8,8% da população brasileira já consumiram a droga alguma vez na vida. Entre adolescentes, esse índice era menos da metade: 4,1%. 

 
Um estudo feito pelo CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) da UNIFESP, que abrangeu todas as cidades com mais de 200 mil habitantes, num total de 107 cidades, que responde em parte, sobre o consumo de maconha no Brasil.
O uso na vida, no total, exceto tabaco e álcool, foi de 19,4%, sendo a maconha a droga que teve maior uso experimental com 6,9%.
As comparações do uso na vida de maconha, nas cinco regiões brasileiras foram semelhantes para três das regiões – Norte, Nordeste e Centro-Oeste com cerca de 5%.
A região Sul foi à campeã em porcentagens de uso na vida para a maconha com 8,4% de usuários.
A dependência de maconha apareceu em 1,0% dos entrevistados, o que equivale a uma população estimada de 451.000 pessoas.
A região Sul foi aquela onde apareceram as porcentagens mais expressivas de dependentes de maconha 1,6% dos entrevistados.
Em relação a outros países o uso na vida de maconha, no Brasil (6,9%) foi próximo aos resultados da Colômbia (5,4%) e Alemanha (4,2%), porém muito abaixo do observado nos EUA (34,2%). 


Outro levantamento do SENAD, mostra que as maiores vítimas de uma eventual liberação da maconha no Brasil seriam os jovens e adolescentes. O álcool, liberado, já foi consumido por quase metade de todos os indivíduos nessa faixa etária. Já a maconha, hoje proibida, tem baixa penetração entre os adolescentes. E é melhor que assim permaneça segundo os especialistas -  inclusive os que defendem a liberação de seu uso terapêutico e científico no Brasil.


CRACK e MERLA

Em 1999, o CEBRID realizou um levantamento domiciliar abrangendo as 24 maiores cidades paulistas. O uso na vida de crack foi de 0,7% para o sexo masculino e o uso de merla apareceu na região Norte com 1,0%, a maior do Brasil. A faixa etária de maior consumo para ambas as substâncias foi igualmente jovem e masculina, com índice de 1,2% (crack) e 0,5% (merla) para homens entre 25 – 34 anos.
Em populações especificas, o uso de crack entre estudantes de ensino fundamental e médio, o crack e a merla, eram utilizados por 0,5% desta população.
O crack, nas crianças e adolescentes em situação de rua, começou a ser utilizado no final dos anos 80, especialmente nos estados da região sul e sudeste. A tendência de aumento foi progressiva, constatada nos levantamentos consecutivos (1987, 1989, 1993, 1997 e 2003). Tal achado também foi observado em outros estudos 48,49. Em São Paulo houve aumento
do consumo entre 1989 e 1993, em Porto Alegre entre 1993 e 1997 e no Rio de
Janeiro o consumo que já era elevado em 1993, acentuou-se ainda mais entre 1997 e 2003. No nordeste cujo consumo de cocaína-crack era insignificante até 1997 (em torno de 1%), subiu em 2003 em Fortaleza para 10,3% e em Recife para 20,3%, sugerindo um aumento na disponibilidade de derivados da coca nesta região.
Ricardo Paiva, coordenador de um projeto que elaborou as diretrizes sobre assistência integral ao crack do Conselho Federal de Medicina, afirma que o uso do crack em nosso país já pode ser considerado epidemia, porém esta visão não é compartilhada por todos. "O Conselho Federal de Medicina reconhece, sim, como um epidemia, apesar de o governo federal não entender como tal. É uma questão de saúde pública grave. Uma epidemia não ocorre apenas em casos de doenças contraídas com o contágio por contato pessoal. O termo se aplica também quando o número de casos está avançando. O governo trabalha com até 0,7% da população do país como usuária, o que dá em torno de um milhão de pessoas, mas a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que até 3% da população brasileira seja usuária, ou seja, seis milhões de pessoas. É um quadro muito alarmante." 


QUAL A POSTURA DO UNODC NO QUE SE REFERE AO USO DE DROGAS?

No relatório publicado em 24 de junho de 2009 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), a insituição se posiciona contra a legalização de drogas, mas a favor de uma ampla discussão para se melhorar o enfretamento às drogas.
Primeiramente, o olhar sobre o usuário como um doente a ser tratado. Ao se ampliar o acesso a programas efetivos de tratamento para os dependentes, haveria uma redução dos índices de consumo, impactando sobre o tráfico. Em segundo lugar, o Estado deve ocupar áreas que foram tomadas pelo poder do tráfico e fornecer aparelhos sociais que garantam recursos às comunidades mais vulneráveis às drogas e ao crime, como moradia, emprego, educação, acesso a serviços públicos e lazer. Por fim, os governos devem aderir aos tratados internacionais contra o crime organizado e maior eficiência na aplicação da lei, bem como, aumentar a transparência e a qualidade dos dados relacionados às drogas.


O USO DE SUBSTÂNCIAS PODE INTERFERIR NA RELAÇÃO CONJUGAL AO LONGO DO TEMPO?


Pesquisadores da Universidade de Buffalo, nos Estados Unidos, realizaram um estudo para verificar a relação entre padrões de uso de substâncias de recémcasados e satisfação conjugal ao longo do tempo. 
Eles queriam verificar especificamente se havia diferença na satisfação conjugal quanto ao gênero em relação ao uso pesado de álcool e hábito tabagista, e dessa forma predizer o impacto deste uso em afetar negativamente a satisfação da relação durante os primeiros sete anos de casado.
Para isso, acompanharam 634 casais que responderam individualmente um questionário sobre dados sócio-demográficos, uso de álcool e tabaco e mais uma escala para avaliar satisfação marital no primeiro, segundo, quarto e sétimo ano de casado.
Algumas questões que podem gerar stress na relação, como nascimento de filho e situação financeira, também foram avaliadas. Foi criado um parâmetro de discrepância de consumo de álcool e tabaco, ou seja, quando ambos utilizavam ou quando ambos não utilizavam, eram não discrepantes, ao passo
que quando apenas o marido ou a esposa consumia, era considerado casal discrepante
Em cada avaliação realizada, as discrepâncias quanto ao uso pesado de álcool foram mais evidentes do que as discrepâncias de uso de tabaco. Após controlar
as variáveis sócio-demográficas, a discrepância entre o casal tanto para álcool como para tabaco, foi associada a uma redução na satisfação conjugal.
Essa redução foi verificada tanto para maridos quanto para esposas. 
Ainda, os casais que apresentavam discrepância em ambas as substâncias apresentaram as maiores taxas de declínio na satisfação marital ao longo do tempo.
Os autores concluem que padrões de uso de substância em casais recém-casados são importantes preditores de mudanças no funcionamento da relação ao longo dos anos. Da mesma forma, não é simplesmente associar uso pesado de álcool ou uso de tabaco a uma insatisfação, mas também diferenças entre o uso de substâncias por homens ou mulheres podem impactar sobre a qualidade do relacionamento.

ONDE BUSCAR AJUDA?

Um mapeamento foi desenvolvido pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas - Senad em parceria com a Universidade de Brasília – UnB, oferece à população Brasileira o cadastro de instituições governamentais e não-governamentais de atenção às questões relacionadas ao consumo de álcool e outras drogas no Brasil. 
Veja o cadastro completo destas insituições aqui: Link

LIVRETO INFORMATIVO SOBRE DROGAS DO CEBRID:

Livreto informativo do CEBRID sobre Drogas Psicotrópicas recomendada a alunos a partir do 7º ano do ensino fundamental: Link




  

FONTES:

BRASIL. Ministério da Justiça. OBID - Observatório Brasileiro de Informações Sobre Drogas: Maconha. Disponivel em: www.obid.senad.gov.br/portais/OBID/conteudo/index.php?id_conteudo=11294&rastro=INFORMA%C3%87%C3%95ES+SOBRE+DROGAS%2FTipos+de+drogas/Maconha . Acesso em novembro de 2011.


UNODC - United Nations Office on Drugs and Crime. Relatório Mundial sobre Drogas 2011: Referências ao Brasil. Disponivel em:


UNIFESP - CEBRID: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas. São Paulo. http://www.cebrid.epm.br/index.php. Acesso em novembro de 2011.

Diário Oficial do Estado de São Paulo, Volume 119, número 124, seção 1, edição de 04 de julho de 2009.

Homish GG, Leonard KE, Kozlowski LT, Conerlius JR. The longitudinal association between multiple substance use discrepancies and marital satisfaction. Addiction 2009; 104:1201-1209.


Duailibi, LB. Ribeiro, M. Laranjeira, R.: Perfil dos usuários de cocaína e crack no Brasil. São Paulo. ABEAD - Associação Brasileira de Estudos do Àlcool e outras drogas. Perfil dos usuários de cocaína e crack no Brasil. Disponivel em:
http://www.abead.com.br/artigos/arquivos/perfil_usuario_coca_crack.pdf  Acesso em novembro de 2011.

Caitano. A. 'O crack é uma epidemia no Brasil, mas o governo não entende assim', diz coordenador do CFM. São Paulo. Revista Veja OnLine. Disponivel em: http://veja.abril.com.br/noticia/saude/o-crack-e-uma-epidemia-no-brasil-mas-o-governo-nao-entende-assim-diz-coordenador-do-cfm Acesso em novembro de 2011.