terça-feira, 25 de janeiro de 2011

UM ENSAIO SOBRE FÉ E PSIQUIATRIA

Antes de iniciarmos, vamos rever alguns conceitos, segundo Carl Jung:

*Religião: pode ser definida como um conjunto de crenças relacionadas com aquilo que a humanidade considera como sobrenatural, divino, sagrado e transcendental, bem como o conjunto de rituais e códigos morais que derivam dessas crenças.
*Religiosidade: tende a denotar um sentido mais estrito, vinculado à religião institucional;
*Espiritualidade: tende a ser diferenciada de religião em função de um sentido (ou conotação) mais individual ou subjetivo de experiência do sagrado.
(Marlon Xavier - O conceito de religiosidade em C. G. Jung - Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC)


Adianto que se você for ateu, talvez este texto lhe pareça tolo. Contudo, não pretendo “converter” ninguém (não sou tão pretensiosa assim), mas apenas expressar minha opinião sobre um tema que considero estar, quer queira quer não, interligado à psiquiatria...
Não se trata de um texto voltado a uma religião em especifico (não é este o foco deste Blog), bem como não irei condenar ou criticar religião alguma. Neste momento, se suas preces mais ardorosas são direcionadas a Deus, Jeová, Alá, Exú, Virgem Maria ou Buda, não tem grande relevância nesta discussão...
Na verdade, a idéia de escrever este ensaio veio através do contato diário com portadores de patologias psiquiátricas.
Muitos deles me procuram para desabafar, falar sobre assuntos diversos, obter informações sobre suas patologias, enfim; os assuntos são variados...
No entanto, notei que muitas das nossas conversas recaem sobre um mesmo tema: religiosidade, e seus relatos são sempre muito semelhantes:

- “Meus familiares acham que eu não tenho nada, que é frescura; que eu preciso buscar a Deus”;
- “Deus não gosta de mim, por isso estou doente”;
- “Deus está me castigando”;
- “Disseram-me que o meu problema é devido à falta de Deus na minha vida”;
- “Eu busquei a cura da minha doença, fiz orações, votos, mas nada adiantou”.
- “Você não foi curado ainda porque não tem fé”;
- “Disseram-me que eu deveria largar os remédios e buscar a Deus, e assim eu ficaria curada”
- “Sou esquizofrênico, e as vozes que eu ouço  são do demônio”.
- “Falaram que eu estou endemoniado”.
- “O que eu tenho não é uma doença. Estou sendo atormentado por espíritos.“


Para ilustrar a minha idéia, irei contar-lhe uma experiência de vida de minha família.
Hoje sou agnóstica teísta, mas tive uma forte criação religiosa. Cresci indo à igreja de duas a três vezes por semana (às vezes até mais), li a bíblia praticamente inteira, e acredito muito em Deus.
Minha mãe sempre foi uma mulher religiosa, bem como meus três irmãos e eu. Cada um à sua forma, sempre tivemos uma ligação muito forte com a nossa religião, e fomos educados a sempre orar não só para pedir, mas também para agradecer.
Minha irmã mais velha nasceu com uma patologia (doença) neurológica chamada epilepsia
Trata-se de um mal relativamente comum, e que pode causar desde rápidas crises de ausência, até convulsões tão fortes, que a pessoa pode vir a se machucar (seja em virtude do esforço físico intenso causado pela convulsão, ou por acidentes decorrentes da perda de consciência, como cair de escadas, por exemplo).
A primeira crise da minha irmã ocorreu quando eu tinha aproximadamente seis anos de idade. No início todos achavam que seria um caso isolado, mas não foi assim. Ela nunca mais deixou de ter convulsões, e as tem ainda hoje.
As lembranças mais claras que tenho da minha infância envolviam a patologia da minha irmã. Lembro-me das incontáveis idas da nossa família indo ao hospital em plena madrugada devido a uma convulsão; nosso desespero sempre que ouvíamos um barulho e pensávamos que poderia ser minha irmã caindo; nossa preocupação quando ela decidia sair sozinha ou entrar sozinha em uma piscina; os tratamentos infindáveis (minha mãe tentou tudo o que estava disponível,  e minha irmã já fez tantos tratamentos diferentes e tomou tantos medicamentos para controlar as convulsões, que eu mal poderia listá-los neste relato); as noites em que ouvi minha mãe chorando, a revolta da minha irmã durante a adolescência por ter a doença, enfim...
Mesmo diante de tudo isso, nossa família permaneceu unida e não perdeu a fé. Não posso enumerar todas as portas que minha mãe bateu em busca de uma cura divina (já que os médicos prometiam o controle das crises, mas não a cura). Recordo-me que as orações mais ardorosas de minha vida envolviam a busca da cura de minha irmã.
Foram tempos difíceis (e ainda são). Minha mãe por inúmeras vezes precisou ouvir “Onde está o seu Deus?” ou ainda “Você ora tanto, e a sua filha não sara?”.
Por mais que fossemos cuidadosos, foram inúmeras idas ao hospital em virtude acidentes domésticos (no último deles, minha irmã passou três dias internada, pois teve queimaduras de segundo e terceiro graus ao ter uma convulsão enquanto preparava o café da manhã. O resultado foram duas hospitalizações devido às queimaduras de segundo e terceiro grau).
Mesmo diante de tantos momentos ruins, minha família e eu nunca perdemos a esperança de que um dia as convulsões iriam parar de ocorrer.
Muitas pessoas culpavam-na por não estar curada, dizendo que “ela não tinha fé, e, portanto, não adiantaria de nada a família toda se mobilizar buscando a cura”.
Mas você pode me perguntar: - afinal, sua irmã foi curada? NÃO! Ainda hoje faz acompanhamento com um neurologista e um psiquiatra e toma medicamentos regularmente. - Mas por que Deus não a curou? Não sei. - Isso te revolta ou te faz perder a fé? N-Ã-O! - Será que um dia ela será curada? Isso eu também não sei.
Hoje ela é uma mulher de quase quarenta anos, casada há 15 anos, mãe de três lindos filhos, e é cheia de sonhos e projetos (o próximo é um curso de massoterapia, que para ela, é uma linda forma de ajudar ao próximo). 
Ela nunca permitiu-se estar na posição de “coitadinha”, e mesmo com todos os entraves da doença, ela nunca deixou de lutar. É uma pessoa forte e uma líder nata!
Muitas vezes, quando era mais jovem, por pura imaturidade, revoltei-me contra Deus. Questionava-me como Ele poderia permitir que isso acontecesse com a minha irmã, sendo que éramos pessoas tão fervorosas.
Não sou uma pessoa cética, como já disse, mas não posso afirmar com toda certeza que minha irmã um dia será curada. O escritor americano H. Jackson Brown autor do livro Life's Little Instruction Book afirma:  “nunca desista de ninguém. Milagres acontecem todos os dias”,  e eu concordo com ele. 
A fé responde a muitos questionamentos, preenche muitas lacunas e satisfaz muitos vazios, mas nem sempre gera os resultados que NÓS esperamos.
Com o amadurecimento, aprendi que nem sempre as coisas acontecem da maneira que a gente quer (chame de desígnios de Deus, destino, predestinação ou o termo que você achar melhor). 
Simplesmente algumas pessoas são milagrosamente curadas, e outras não, e isso não tem, na minha opinião, obrigatoriamente relação com o tamanho ou a intensidade da fé do individuo. 
Creio que quando algo sobrenatural deve acontecer, ele simplesmente acontece, e isso não tem muito a ver com fé ou merecimento. Por motivos que somente Ele sabe, às vezes o milagre não vem(ou não acontece da forma que a gente espera)...
Para deixar a situação ainda mais complexa, as pessoas muitas vezes culpam o próprio paciente por sua doença, e é como se a pessoa “optasse por ser doente”.
Vejo casos em que as pessoas se afastam do portador da patologia, alegando que “se ele não tem fé, não vou perder meu tempo tentando ajuda-lo”.
Esta visão das pessoas é muito mais forte quando falamos de patologias psiquiátricas.
O que muitos não entendem, é que as pessoas não “escolhem ter uma doença” (nem mesmo os hipocondríacos). Elas TÊM a doença e ponto final!
Não estou falando de conformismo, afinal, ter uma doença ou ficar doente é algo que pode acontecer com qualquer um, e isso independe da intensidade da sua fé. Existem momentos em que a cura não vem, em que o milagre não ocorre, e isso não é culpa de ninguém.
Na bíblia o apóstolo Paulo afirmava ter “um espinho na carne” (2º Coríntios cap 12 vs 07)
No novo testamento nunca foi elucidado qual era este espinho (que poderia inclusive ser uma doença).
Então isso significa que ele não tinha fé para livrar-se deste espinho? NÃO! Paulo foi um dos homens mais notáveis da bíblia, e afirmar isso seria uma injustiça!
Claro que também não estou afirmando que as pessoas devem perder a fé na cura, mas, que devem entender que, se um dia sua fé não os curar, isso não significa que eles sejam fracassados ou culpados, pois este foi um desígnio de Deus e pronto!
No que se refere à psiquiatria, as pessoas sempre acham que a pessoa é depressiva, porque não tem fé; é esquizofrênica e tem alucinações (ouve vozes ou vê coisas que não existem) porque estão endemoniadas; tem oscilações de humor porque sua fé não é forte o suficiente ou porque ela é “de lua”, e assim por diante... 
Mas afinal, alguém escolhe ter uma doença psiquiátrica? Este tipo de pensamento não ajuda em nada, e o que é ainda pior, só aumenta a angústia e o sentimento de fracasso do portador (o que pode inclusive causar o agravamento de certos sintomas, dependendo da patologia que a pessoa apresenta).
Alguns individuos podem até mostrar-se como exemplos a serem seguidos, como por exemplo, ao afirmar que tinham uma determinada doença e foram curados. Bom, ele pode ter sido curado, e pode ser que você possa ser curado também, mas isso não é via de regra.
Nas doenças psiquiátricas, também já ouvi relatos de pessoas que afirmam terem sido curadas de depressão, bipolaridade e até esquizofrenia.

Posso avaliar isso sob duas óticas: 
1)    a religiosa: sim, Deus te curou!
2)   a cientifica: você poderia ter passado por um estado depressivo, ao qual todos nós estamos sujeitos / pode ser que a bipolaridade não tenha sido corretamente diagnosticada (ou auto-diagnosticada, já que hoje em dia e "moda" entitular-se bipolar) / no caso da esquizofrenia, você pode ter passado, por exemplo, por um transtorno psicótico breve (que consiste na manifestação dos sintomas típicos da esquizofrenia por um curto espaço de tempo).
Cientistas, psiquiatras e psicólogos muitas vezes são definidos como “ateus”, pois buscam no conhecimento humano a cura ou o alivio dos sintomas de doenças da alma, já que estas muitas vezes estas são atribuídas a “entidades do mal” (use o termo que achar melhor, diabo, demônio, capeta, enfim). 
Mas será que é sempre assim?
A cisão entre a ciência e a fé não algo tão novo. 
Esta idéia teve inicio com o fim da Idade Média, quando a ciência cortou seus vínculos com a igreja. 
No passado, um cientista ou estudioso poderia ser condenado à fogueira caso publicasse algo com o qual a Igreja não concordava (vide Galileu Galilei que teve sérios problemas com a Inquisição, ao declarar que a Terra não era o centro do Sistema Solar).
Quando houve esta ruptura com a igreja (já na idade moderna), muitos estudiosos declararam-se ateus, e distanciaram-se cada vez mais da religião e tornaram-se ateus.
Freud afirmava que “a religião seria assim, a neurose obsessiva universal da humanidade”, no entanto, pesquisas apontam que cientistas ateus não são a maioria, e os que se definem como ateus, fazem-nos mais por questões pessoais do que uma atitude decorrente de conclusões científicas.
Na psiquiatria, esta perspectiva negativa relativa à religião não se baseava em pesquisas sistemáticas nem em cuidadosas observações objetivas, mas sim, nas opiniões pessoais e experiências clínicas de pessoas  que tiveram pouca experiência com religiosidade saudável.
A fé pode ser benéfica ao ser humano, desde que seja um refúgio para a alma, seja a esperança, a alegria, a possibilidade de acreditar no improvável, contudo, de maneira saudável. Sem obrigações ou angústias.
Particularmente considero que a fé é muito importante à vida do homem (inúmeros estudos científicos comprovam isso).
Há evidências mostrando que as pessoas se tornam ainda mais religiosas quando estão doentes, tanto física, como mentalmente. 
Em situações de alto stress psicológico, a religião é freqüentemente usada para auxiliar a lidar com a situação de sofrimento, ou adaptar-se a ela. 
As pessoas imploram a ajuda de Deus, oram ou rezam, realizam rituais religiosos, ou buscam conforto e apoio de membros de suas comunidades religiosas. 
Isso explica por que grande parte das pessoas com doenças mentais são, concomitantemente, muito religiosas. 

Ainda assim, elas são também constantemente estigmatizadas; literalmente rotuladas como fracas em meio à grande parte das comunidades religiosas, já que poucas delas aceitam as patologias psiquiátricas como uma doença (exceto em raros casos, onde há um visível declínio da cognição ou do contato com a realidade).
Durante uma conversa com um rapaz portador do transtorno de personalidade Borderline,  ele comentou que amava muito a igreja que frequentava, e que sentia saudade de frequentar os cultos, mas havia se afastado da congregação, pois não suportava a pressão que sofria para que tivesse mais fé e assim, fosse curado. Ele ainda era criticado por dizer estar com uma doença imaginária (alguns diziam que a doença dele não existia, já que ele aparentava ser alguém "normal").
Ele dizia sentir saudade das músicas, das pregrações, do convivio com as pessoas, mas a pressão era tamanha, que ele optou por isolar-se de todos, e realizar suas orações em casa e sozinho.

Mas será que isso é verdade? As doenças mentais são de fundo espiritual? Os portadores são fracos? Ser inabalável em momentos extremos (como durante surtos) é algo factível?
aDiante de todas estas dúvidas, o que fazer então? Escolher entre a ciência e a religião? NÃO!
O fato é que não precisamos decidir entre a religiosidade / espiritualidade e a ciência. 
Por que escolher, sendo que você pode ficar com os dois?
Então faça suas orações, frequente as reuniões e cultos, tenha fé, vá às consultas e tome seus remédios! Ponto final! Não é preciso fazer uma escolha.
Ser obrigado a escolher entre a espiritualidade e a ciência, é como ter que escolher entre um carro e uma lancha (ambos te transportam a algum lugar, mas são coisas totalmente diferentes).
É preciso entender que os portadores de patologias psiquiátricas já sentem uma das maiores dores da humanidade: A DOR DA ALMA. 
A espiritualidade e a religiosidade devem servir de bálsamo para amenizar esta dor, e não um veneno que mata a alma pelo sentimento de culpa. 
Deve ser sinônimo de liberdade, e não de prisão.
Porque tornar esta dor ainda maior e mais sufocante com um sentimento de culpa totalmente desnecessário? A fé em DEUS deve amenizar a dor, e não aumentá-la. 

*Dedico este post à minha querida e forte irmã. Te amo!





Texto escrito por Letícia Lacerda


FONTES:

Xavier, M. O conceito de religiosidade em C. G. Jung. O conceito de religiosidade em C. G. Jung Jung. PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 37, n. 2, pp. 183-189, maio/ago. 2006. Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/face/ojs/index.php/revistapsico/article/viewFile/1433/1126

Cintra, JP. Cientistas Ateus? In Quadrante de Cultura & Livraria., Internet. Disponível em http://www.quadrante.com.br/pages/servicos02.asp?id=376&categoria=Ciencia_Fe , atualizado em 2011.




4 comentários:

Marli disse...

Amiga vc disse tudo amei seu post conto com vc sempre!!! beijso mil

Léa disse...

oi querida amiga,posso dizer assim?tenho pontos enormes de interrogação na minha cabeça,tenho uma longa historia ,de religiao e esquizofrenia?não sei se foi minha fé que me tornou esquizofrenica ou se foi uma espiritualidade que "acho" que possuo,como posso entrar em contato com voce?gostaria que pudesse me ajudar com esse problema.por favor.

Leticia Lacerda disse...

Oi, querida amiga Léa! Posso adiantar que religião ou espiritualidade não causa esquizofrenia. Dê uma lidinha no post sobre esquizofrenia, e você vai entender que a causa da esquizofrenia ainda não foi totalmente elucidada; existem apenas hipóteses, e a mais aceita é de que ela ocorre devido a um desequilibrio dos niveis de dopamina em diferentes áreas do cérebro. O Stress pode desencadear surtos, e esta é uma outra hipótese bastante aceita. Na verdade, a espiritualidade saudável é benéfica ao ser humano, pois ela traz a esperança, a crença de dias melhores; de que Alguém cuida de nós, ainda que não possamos vê-Lo. O importante é não perder o "ponto de equilibrio". Na minha opinião, a partir do momento que uma crença torna-se um peso ou passa a lhe trazer problemas e "fardos", ela deixa de ser benéfica, e precisa ser revista.
Caso queira, encaminha sua mensagem para allanaveronesipink@hotmail.com

Um grande beijo!

JU PIMENTA disse...

Estou fascinada pelo seu Blog, a inteligência, a sutileza e a razão dos posts!
Sou estudante de serviço social e secretária de um consultório psiquiátrico.
Meu filho foi diagnosticado com Epilepsia aos 6 anos de idade, por causa de 2 apagões consecutivos que teve, fez consultas periódicas e tomou a mesma medicação (Carbamazepina) até os 15 anos, quando sua médica decidiu tirar... Nunca mais teve nada! Hj aos 19 anos continua sem nenhuma medicação.
PARABÉNS PELO BLOG e pode ter certeza que passei adiante!

Super beiJU

Ju Pimenta Belo Horizonte - MG