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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

SOBRE OS EUFEMISMOS

*Eufemismo: é uma figura de linguagem que emprega termos mais agradáveis para suavizar uma expressão.


Particularmente, eu gosto dos eufemismos, mas isso é algo relativamente recente. 
Creio que seja fruto do amadurecimento.
Quando era mais jovem, achava que usar termos mais brandos era “coisa de gente hipócrita” ou de pessoas que não tem coragem de admitir a verdade.
Eufemismos podem ser perigosos quando utilizados de maneira incorreta, mas sem dúvida são bem mais eloqüentes.
Posso dizer: “Eu matei aquele infeliz” ou dizer “privei aquela pessoa de sua vida vazia e sem felicidade” (fica parecendo até que eu fiz um favor). Mesmo que utilizando palavras mais leves, algo não muda no meu exemplo: cometi um crime; sou uma assassina.
Acho que é necessário em certos momentos ser “curta e grossa”, mas este tipo de situação é minoria. Na maioria das vezes, é bem melhor utilizar palavras mais amenas; geralmente elas causam melhor impressão, causam menos mal entendidos e ferem menos.
Já ouvi pessoas com patologias psiquiátricas utilizarem o termo “eu sou doente mental”. Bem, isso não é errado, mas acho esse termo muito pesado.
Inclusive me questionaram uma vez, porque eu me refiro a estas pessoas como “portadoras de patologias psiquiátricas” e não pura e simplesmente doentes mentais. Este termo, embora correto, é muito estigmatizante, como já disse, acho pesado, acho que fere... acho que é feio mesmo!
Se você tivesse uma empresa e precisasse escolher entre dois candidatos a uma vaga, qual você escolheria: o doente mental ou o portador de uma patologia psiquiátrica?
Para mim os eufemismos são muito importantes na psiquiatria...
Portadores de patologias psiquiátricas na maioria das vezes têm algo em comum: são pessoas fragilizadas e mergulhadas em um quase constante  conflito interno. Muitas vezes são indivíduos sensíveis que têm uma alma ferida. Quanto às familias, muitas vêzes elas estão cansadas, tristes, perdidas... Para que então, causar um sofrimento maior ainda sem necessidade?
Usar termos duros nestes casos, seria como enfiar o dedo em uma ferida diariamente, achando que ela assim iria cicatrizar mais rápido.
Claro que em certos momentos estas pessoas precisam de palavras mais duras e enfáticas (assim como todos nós), mas isso não deve ser regra.
As mensagens podem ser muito claras e objetivas sem serem duras e ríspidas, e isso é algo que requer prática e amadurecimento. Ter o hábito da leitura também é um importante aliado na hora de “escolher as melhores palavras”. Mas sem dúvida, o eufemismo é uma arte que brota do amadurecimento, da empatia e acima de tudo, da paciência.
Ser eufemista é ser sábio!!! É quase uma filosofia de vida!
O sábio eufemista não aponta defeitos ou falhas, ele faz com que a pessoa entenda que não tomou a decisão correta, e por isso, sofrerá as conseqüências de sua escolha errada. 
Ele não diz que a pessoa não tem solução e nunca vai aprender. Ele dá oportunidade para que o indivíduo perceba seus  repetidos erros, fazendo com que a necessidade de mudança nasça por si só (sim, eu sei que nem sempre isso acontece, mas vale a pena lutar).
“Ser sábio é aprender usar cada dor como uma oportunidade para aprender lições, cada erro como uma ocasião para corrigir rotas, cada fracasso como uma chance para ter mais coragem.” (Augusto Cury)
Alguns podem achar que sou hipócrita, e que tento esconder a verdade com as palavras suaves, mas a meu ver, creio que na maioria das vezes a verdade pode ser mostrada, elucidada, e não “esfregada na cara”.


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

UM ENSAIO SOBRE FÉ E PSIQUIATRIA

Antes de iniciarmos, vamos rever alguns conceitos, segundo Carl Jung:

*Religião: pode ser definida como um conjunto de crenças relacionadas com aquilo que a humanidade considera como sobrenatural, divino, sagrado e transcendental, bem como o conjunto de rituais e códigos morais que derivam dessas crenças.
*Religiosidade: tende a denotar um sentido mais estrito, vinculado à religião institucional;
*Espiritualidade: tende a ser diferenciada de religião em função de um sentido (ou conotação) mais individual ou subjetivo de experiência do sagrado.
(Marlon Xavier - O conceito de religiosidade em C. G. Jung - Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC)


Adianto que se você for ateu, talvez este texto lhe pareça tolo. Contudo, não pretendo “converter” ninguém (não sou tão pretensiosa assim), mas apenas expressar minha opinião sobre um tema que considero estar, quer queira quer não, interligado à psiquiatria...
Não se trata de um texto voltado a uma religião em especifico (não é este o foco deste Blog), bem como não irei condenar ou criticar religião alguma. Neste momento, se suas preces mais ardorosas são direcionadas a Deus, Jeová, Alá, Exú, Virgem Maria ou Buda, não tem grande relevância nesta discussão...
Na verdade, a idéia de escrever este ensaio veio através do contato diário com portadores de patologias psiquiátricas.
Muitos deles me procuram para desabafar, falar sobre assuntos diversos, obter informações sobre suas patologias, enfim; os assuntos são variados...
No entanto, notei que muitas das nossas conversas recaem sobre um mesmo tema: religiosidade, e seus relatos são sempre muito semelhantes:

- “Meus familiares acham que eu não tenho nada, que é frescura; que eu preciso buscar a Deus”;
- “Deus não gosta de mim, por isso estou doente”;
- “Deus está me castigando”;
- “Disseram-me que o meu problema é devido à falta de Deus na minha vida”;
- “Eu busquei a cura da minha doença, fiz orações, votos, mas nada adiantou”.
- “Você não foi curado ainda porque não tem fé”;
- “Disseram-me que eu deveria largar os remédios e buscar a Deus, e assim eu ficaria curada”
- “Sou esquizofrênico, e as vozes que eu ouço  são do demônio”.
- “Falaram que eu estou endemoniado”.
- “O que eu tenho não é uma doença. Estou sendo atormentado por espíritos.“


Para ilustrar a minha idéia, irei contar-lhe uma experiência de vida de minha família.
Tive uma forte criação religiosa. Cresci indo à igreja de duas a três vezes por semana (às vezes até mais), li a bíblia praticamente inteira, e acredito muito em Deus.
Minha mãe sempre foi uma mulher religiosa, bem como meus três irmãos e eu. Cada um à sua forma, sempre tivemos uma ligação muito forte com a nossa religião, e fomos educados a sempre orar não só para pedir, mas também para agradecer.
Minha irmã mais velha nasceu com uma patologia (doença) neurológica chamada epilepsia
Trata-se de um mal relativamente comum, e que pode causar desde rápidas crises de ausência, até convulsões tão fortes, que a pessoa pode vir a se machucar (seja em virtude do esforço físico intenso causado pela convulsão, ou por acidentes decorrentes da perda de consciência, como cair de escadas, por exemplo).
A primeira crise da minha irmã ocorreu quando eu tinha aproximadamente seis anos de idade. No início todos achavam que seria um caso isolado, mas não foi assim. Ela nunca mais deixou de ter convulsões, e as tem ainda hoje.
As lembranças mais claras que tenho da minha infância envolviam a patologia da minha irmã. Lembro-me das incontáveis idas da nossa família indo ao hospital em plena madrugada devido a uma convulsão; nosso desespero sempre que ouvíamos um barulho e pensávamos que poderia ser minha irmã caindo; nossa preocupação quando ela decidia sair sozinha ou entrar sozinha em uma piscina; os tratamentos infindáveis (minha mãe tentou tudo o que estava disponível,  e minha irmã já fez tantos tratamentos diferentes e tomou tantos medicamentos para controlar as convulsões, que eu mal poderia listá-los neste relato); as noites em que ouvi minha mãe chorando, a revolta da minha irmã durante a adolescência por ter a doença, enfim...
Mesmo diante de tudo isso, nossa família permaneceu unida e não perdeu a fé. Não posso enumerar todas as portas que minha mãe bateu em busca de uma cura divina (já que os médicos prometiam o controle das crises, mas não a cura). Recordo-me que as orações mais ardorosas de minha vida envolviam a busca da cura de minha irmã.
Foram tempos difíceis (e ainda são). Minha mãe por inúmeras vezes precisou ouvir “Onde está o seu Deus?” ou ainda “Você ora tanto, e a sua filha não sara?”.
Por mais que fossemos cuidadosos, foram inúmeras idas ao hospital em virtude acidentes domésticos (no último deles, minha irmã passou três dias internada, pois teve queimaduras de segundo e terceiro graus ao ter uma convulsão enquanto preparava o café da manhã. O resultado foram duas hospitalizações devido às queimaduras de segundo e terceiro grau).
Mesmo diante de tantos momentos ruins, minha família e eu nunca perdemos a esperança de que um dia as convulsões iriam parar de ocorrer.
Muitas pessoas culpavam-na por não estar curada, dizendo que “ela não tinha fé, e, portanto, não adiantaria de nada a família toda se mobilizar buscando a cura”.
Mas você pode me perguntar: - afinal, sua irmã foi curada? NÃO! Ainda hoje faz acompanhamento com um neurologista e um psiquiatra e toma medicamentos regularmente. - Mas por que Deus não a curou? Não sei. - Isso te revolta ou te faz perder a fé? N-Ã-O! - Será que um dia ela será curada? Isso eu também não sei.
Hoje ela é uma mulher de quase quarenta anos, casada há 15 anos, mãe de três lindos filhos, e é cheia de sonhos e projetos (o próximo é um curso de massoterapia, que para ela, é uma linda forma de ajudar ao próximo). 
Ela nunca permitiu-se estar na posição de “coitadinha”, e mesmo com todos os entraves da doença, ela nunca deixou de lutar. É uma pessoa forte e uma líder nata!
Muitas vezes, quando era mais jovem, por pura imaturidade, revoltei-me contra Deus. Questionava-me como Ele poderia permitir que isso acontecesse com a minha irmã, sendo que éramos pessoas tão fervorosas.
Não sou uma pessoa cética, como já disse, mas não posso afirmar com toda certeza que minha irmã um dia será curada. O escritor americano H. Jackson Brown autor do livro Life's Little Instruction Book afirma:  “nunca desista de ninguém. Milagres acontecem todos os dias”,  e eu concordo com ele. 
A fé responde a muitos questionamentos, preenche muitas lacunas e satisfaz muitos vazios, mas nem sempre gera os resultados que NÓS esperamos.
Com o amadurecimento, aprendi que nem sempre as coisas acontecem da maneira que a gente quer (chame de desígnios de Deus, destino, predestinação ou o termo que você achar melhor). 
Simplesmente algumas pessoas são milagrosamente curadas, e outras não, e isso não tem, na minha opinião, obrigatoriamente relação com o tamanho ou a intensidade da fé do individuo. 
Creio que quando algo sobrenatural deve acontecer, ele simplesmente acontece, e isso não tem muito a ver com fé ou merecimento. Por motivos que somente Ele sabe, às vezes o milagre não vem(ou não acontece da forma que a gente espera)...
Para deixar a situação ainda mais complexa, as pessoas muitas vezes culpam o próprio paciente por sua doença, e é como se a pessoa “optasse por ser doente”.
Vejo casos em que as pessoas se afastam do portador da patologia, alegando que “se ele não tem fé, não vou perder meu tempo tentando ajuda-lo”.
Esta visão das pessoas é muito mais forte quando falamos de patologias psiquiátricas.
O que muitos não entendem, é que as pessoas não “escolhem ter uma doença” (nem mesmo os hipocondríacos). Elas TÊM a doença e ponto final!
Não estou falando de conformismo, afinal, ter uma doença ou ficar doente é algo que pode acontecer com qualquer um, e isso independe da intensidade da sua fé. Existem momentos em que a cura não vem, em que o milagre não ocorre, e isso não é culpa de ninguém.
Na bíblia o apóstolo Paulo afirmava ter “um espinho na carne” (2º Coríntios cap 12 vs 07)
No novo testamento nunca foi elucidado qual era este espinho (que poderia inclusive ser uma doença).
Então isso significa que ele não tinha fé para livrar-se deste espinho? NÃO! Paulo foi um dos homens mais notáveis da bíblia, e afirmar isso seria uma injustiça!
Claro que também não estou afirmando que as pessoas devem perder a fé na cura, mas, que devem entender que, se um dia sua fé não os curar, isso não significa que eles sejam fracassados ou culpados, pois este foi um desígnio de Deus e pronto!
No que se refere à psiquiatria, as pessoas sempre acham que a pessoa é depressiva, porque não tem fé; é esquizofrênica e tem alucinações (ouve vozes ou vê coisas que não existem) porque estão endemoniadas; tem oscilações de humor porque sua fé não é forte o suficiente ou porque ela é “de lua”, e assim por diante... 
Mas afinal, alguém escolhe ter uma doença psiquiátrica? Este tipo de pensamento não ajuda em nada, e o que é ainda pior, só aumenta a angústia e o sentimento de fracasso do portador (o que pode inclusive causar o agravamento de certos sintomas, dependendo da patologia que a pessoa apresenta).
Alguns individuos podem até mostrar-se como exemplos a serem seguidos, como por exemplo, ao afirmar que tinham uma determinada doença e foram curados. Bom, ele pode ter sido curado, e pode ser que você possa ser curado também, mas isso não é via de regra.
Nas doenças psiquiátricas, também já ouvi relatos de pessoas que afirmam terem sido curadas de depressão, bipolaridade e até esquizofrenia.

Posso avaliar isso sob duas óticas: 
1)    a religiosa: sim, Deus te curou!
2)   a cientifica: você poderia ter passado por um estado depressivo, ao qual todos nós estamos sujeitos / pode ser que a bipolaridade não tenha sido corretamente diagnosticada (ou auto-diagnosticada, já que hoje em dia e "moda" entitular-se bipolar) / no caso da esquizofrenia, você pode ter passado, por exemplo, por um transtorno psicótico breve (que consiste na manifestação dos sintomas típicos da esquizofrenia por um curto espaço de tempo).
Cientistas, psiquiatras e psicólogos muitas vezes são definidos como “ateus”, pois buscam no conhecimento humano a cura ou o alivio dos sintomas de doenças da alma, já que estas muitas vezes estas são atribuídas a “entidades do mal” (use o termo que achar melhor, diabo, demônio, capeta, enfim). 
Mas será que é sempre assim?
A cisão entre a ciência e a fé não algo tão novo. 
Esta idéia teve inicio com o fim da Idade Média, quando a ciência cortou seus vínculos com a igreja. 
No passado, um cientista ou estudioso poderia ser condenado à fogueira caso publicasse algo com o qual a Igreja não concordava (vide Galileu Galilei que teve sérios problemas com a Inquisição, ao declarar que a Terra não era o centro do Sistema Solar).
Quando houve esta ruptura com a igreja (já na idade moderna), muitos estudiosos declararam-se ateus, e distanciaram-se cada vez mais da religião e tornaram-se ateus.
Freud afirmava que “a religião seria assim, a neurose obsessiva universal da humanidade”, no entanto, pesquisas apontam que cientistas ateus não são a maioria, e os que se definem como ateus, fazem-nos mais por questões pessoais do que uma atitude decorrente de conclusões científicas.
Na psiquiatria, esta perspectiva negativa relativa à religião não se baseava em pesquisas sistemáticas nem em cuidadosas observações objetivas, mas sim, nas opiniões pessoais e experiências clínicas de pessoas  que tiveram pouca experiência com religiosidade saudável.
A fé pode ser benéfica ao ser humano, desde que seja um refúgio para a alma, seja a esperança, a alegria, a possibilidade de acreditar no improvável, contudo, de maneira saudável. Sem obrigações ou angústias.
Particularmente considero que a fé é muito importante à vida do homem (inúmeros estudos científicos comprovam isso).
Há evidências mostrando que as pessoas se tornam ainda mais religiosas quando estão doentes, tanto física, como mentalmente. 
Em situações de alto stress psicológico, a religião é freqüentemente usada para auxiliar a lidar com a situação de sofrimento, ou adaptar-se a ela. 
As pessoas imploram a ajuda de Deus, oram ou rezam, realizam rituais religiosos, ou buscam conforto e apoio de membros de suas comunidades religiosas. 
Isso explica por que grande parte das pessoas com doenças mentais são, concomitantemente, muito religiosas. 

Ainda assim, elas são também constantemente estigmatizadas; literalmente rotuladas como fracas em meio à grande parte das comunidades religiosas, já que poucas delas aceitam as patologias psiquiátricas como uma doença (exceto em raros casos, onde há um visível declínio da cognição ou do contato com a realidade).
Durante uma conversa com um rapaz portador do transtorno de personalidade Borderline,  ele comentou que amava muito a igreja que frequentava, e que sentia saudade de frequentar os cultos, mas havia se afastado da congregação, pois não suportava a pressão que sofria para que tivesse mais fé e assim, fosse curado. Ele ainda era criticado por dizer estar com uma doença imaginária (alguns diziam que a doença dele não existia, já que ele aparentava ser alguém "normal").
Ele dizia sentir saudade das músicas, das pregrações, do convivio com as pessoas, mas a pressão era tamanha, que ele optou por isolar-se de todos, e realizar suas orações em casa e sozinho.
 
Mas será que isso é verdade? As doenças mentais são de fundo espiritual? Os portadores são fracos? Ser inabalável em momentos extremos (como durante surtos) é algo factível?
aDiante de todas estas dúvidas, o que fazer então? Escolher entre a ciência e a religião? NÃO!
O fato é que não precisamos decidir entre a religiosidade / espiritualidade e a ciência. 
Por que escolher, sendo que você pode ficar com os dois?
Então faça suas orações, frequente as reuniões e cultos, tenha fé, vá às consultas e tome seus remédios! Ponto final! Não é preciso fazer uma escolha.
Ser obrigado a escolher entre a espiritualidade e a ciência, é como ter que escolher entre um carro e uma lancha (ambos te transportam a algum lugar, mas são coisas totalmente diferentes).
É preciso entender que os portadores de patologias psiquiátricas já sentem uma das maiores dores da humanidade: A DOR DA ALMA. 
A espiritualidade e a religiosidade devem servir de bálsamo para amenizar esta dor, e não um veneno que mata a alma pelo sentimento de culpa. 
Deve ser sinônimo de liberdade, e não de prisão.
Porque tornar esta dor ainda maior e mais sufocante com um sentimento de culpa totalmente desnecessário? A fé em DEUS deve amenizar a dor, e não aumentá-la. 

*Dedico este post à minha querida e forte irmã. Te amo!





Texto escrito por Letícia Lacerda


FONTES:

Xavier, M. O conceito de religiosidade em C. G. Jung. O conceito de religiosidade em C. G. Jung Jung. PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 37, n. 2, pp. 183-189, maio/ago. 2006. Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/face/ojs/index.php/revistapsico/article/viewFile/1433/1126

Cintra, JP. Cientistas Ateus? In Quadrante de Cultura & Livraria., Internet. Disponível em http://www.quadrante.com.br/pages/servicos02.asp?id=376&categoria=Ciencia_Fe , atualizado em 2011.




quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

TRANSTORNO ESQUIZOAFETIVO, ESQUIZOFRENIFORME, E OUTROS TRANSTORNOS PSICÓTICOS.



Obs.: Para melhor compreensão deste post, aconselho a prévia leitura dos posts  Transtorno Afetivo Bipolar e Esquizofrenia. 




Esquizofrenia significa  "mente dividida". É uma patologia clássica (há séculos são relatados sintomas da doença) e muito comum. No entanto, nem todos os sintomas psicóticos podem ser caracterizados como esquizofrenia, já que não satisfazem todos os critérios diagnósticos desta doença.
As outras síndromes psiquiátricas que possuem sintomas semelhantes, mas que não podem ser caracterizados como esquizofrenia são: transtorno esquizofreniforme, transtorno esquizoafetivo, transtorno esquizotípico, transtorno delirante e episódio psicótico breve.
Em resumo, o transtorno esquizofreniforme possui sintomas idênticos ao da esquizofrenia, com a diferença de que estes sintomas permanecem por mais de um mês e menos de seis meses.
Já a esquizoafetividade é caracterizada pelos sintomas da esquizofrenia e mais os sintomas dos transtornos de humor.
O transtorno delirante, assim como a esquizofrenia, é um transtorno crônico (ou seja, permanente), porém o sintoma predominante são os delírios. Pode ser acompanhado por convulsões, e é mais comum em mulheres.
Finalmente, o episódio psicótico breve caracteriza-se pela duração curta (pelo menos um dia, e no máximo um mês), dos sintomas da esquizofrenia.
O DSM-IV* ainda descreve em um apêndice dois tipos de transtornos psicóticos: o transtorno depressivo pós-psicótico esquizofrênico, que é caracterizado pela presença de todos os sintomas depressivos durante o final de um surto na esquizofrenia, e o transtorno deteriorante simples (esquizofrenia simples), que caracteriza-se pelo desenvolvimento dos sintomas de retraimento social e outros sintomas similares ao da esquizofrenia. A esquizofrenia simples é um diagnóstico ainda discutível, não havendo pleno consenso entre os especialistas.
Um dos grandes problemas desta classe de pacientes, é a alta taxa de não-aderência à terapia medicamentosa, já que 25 a 50% dos pacientes não toma os medicamentos da forma com que foi prescrita (deixam de tomar o medicamento, ou não tomam todas as doses recomendadas, aumentam ou diminuem as doses, etc).
Os fatores externos que devem ser resguardados neste grupo de pacientes são os fatores estressantes desencadeantes e o ambiente interpessoal.
Este grupo de pessoas precisa de certo distanciamento interpessoal, pois este pode ser um fator desencadeante de um surto. Pressiona-los a manter maior contato com outras pessoas contra sua vontade pode criar um stress maciço que leva à descompensação (um surto).
Ao mesmo tempo, qualquer sucesso ou perda recente podem ser fatores estressantes importantes. Às vezes um evento simples e sem grande relevância pode ter um forte significado psicológico ao portador de uma dessas patologias. Portanto, é muito importante avaliar e observar estas situações que podem ser ativadoras de um episódio psicótico.


TRANSTORNO ESQUIZOFRENIFORME (CID F20.8)

Como já explicado o transtorno esquizofreniforme é caracterizado pela presença dos sintomas típicos da esquizofrenia, porém por um período maior que um e menor que seis meses, não havendo prejuízo no funcionamento social ou ocupacional durante alguma parte da doença (embora possa ocorrer). Após este período, a pessoa acometida volta à suas condições mentais anteriores.
A presença de afetividade, confusão mental, perplexidade durante o auge do episódio esquizofrênico e a duração dos sintomas por um curto espaço de tempo podem predizer um bom prognóstico (isto é, um bom curso favorável da doença), já uma diminuição da afetividade e o embotamento afetivo (diminuição na habilidade de expressar-se emocionalmente), podem indicar um prognóstico ruim.
Alguns portadores podem ter sintomas mais semelhantes aos da esquizofrenia, e outros mais semelhantes aos transtornos de humor.
Após a manifestação dos sintomas, o paciente pode apresentar um período de depressão pós-surto, onde estão presentes os sintomas de um episódio depressivo maior (humor depressivo ou perda de interesse/prazer por atividades cotidianas).
É importante observar ideações suicidas (pensamento ou tentativas de suicídio) neste grupo de pessoas.
Mais ou menos metade daqueles diagnosticados com o transtorno esquizofreniforme são depois acometidos de esquizofrenia. Esse transtorno ocorre mais comumente naquelas pessoas que tem familiares com esquizofrenia ou transtorno afetivo bipolar (ou transtorno maníaco depressivo) e muitos, inclusive, depois de acometidos pelo transtorno esquizofreniforme, mantêm o diagnóstico de bipolaridade.
Os familiares de pacientes com transtorno esquizofreniforme têm maior propensão a terem transtorno de humor, se comparados a familiares de esquizofrênicos e bipolares.
A exata causa da doença é desconhecida.

TRANSTORNO ESQUIZOAFETIVO (CID F25)

Tem como característica a presença dos sintomas psicóticos típicos da Esquizofrenia além das características do transtorno de humor. Em algum momento, existe um Episódio Depressivo Maior, um Episódio Maníaco (humor notavelmente expansivo, elevado ou irritável) ou um Episódio Misto (mistura dos tipos anteriores).
Este grupo de pessoas apresenta geralmente um comportamento bastante mutável.
Constitui um grupo heterogêneo, que pode ser:
- Tipo Bipolar: Este subtipo aplica-se se um Episódio Maníaco ou Episódio Misto faz parte da apresentação. Episódios Depressivos Maiores também podem ocorrer.
- Tipo Depressivo: Este subtipo aplica-se quando apenas Episódios Depressivos Maiores fazem parte da apresentação.
Os sintomas de esquizofrenia podem aparecer de forma alternada aos sintomas dos transtornos de humor, ou concomitantemente.
Pacientes do tipo Bipolar tem prognóstico similar aos dos portadores de transtorno Bipolar do tipo I e os depressivos, semelhante aos dos esquizofrênicos.
É o menos comum que os outros tipos de esquizofrenia propriamente ditos (sua prevalência é de aproximadamente 0,5 a 0,8%), acomete mais mulheres do que homens, sobretudo as mulheres casadas. Os homens tendem a exibir um comportamento anti-social e ter acentuado embotamento ou inadequação do afeto.
Os esquizoafetivos têm um prognóstico melhor que os esquizofrênicos, mas um prognóstico pior que as pessoas com transtornos de humor.
Alguns dados indicam que o comportamento suicida pode ser mais comum em mulheres com transtorno esquizoafetivo do que em homens. A incidência de suicídio entre estes pacientes está em torno de 10%.
Vale lembrar que pessoas em tratamento com esteróides, os abusadores de anfetamina e fenciclidina (também conhecida como PCP, Peace Pill ou pó-de-anjo; é uma forte droga alucinógena) e alguns pacientes com epilepsia do lobo temporal são propensos a apresentar os sintomas esquizofrênicos e de transtorno de humor concomitantemente (o que é diferente do diagnóstico de esquizoafetividade).
Sua causa ainda é desconhecida.

TRANSTORNO ESQUIZOTIPICO (CID F21)

(Na verdade, este é um tipo de transtorno de personalidade, mas será estudada juntamente com os transtornos delirantes para facilitar o entendimento). 

O Transtorno de Personalidade Esquizotípica pode ser classificado como um modo suave de esquizofrenia.
É caracterizado por formas incomuns de pensamento e de percepção, afeto frio ou inapropriado, anedonia (perda da sensação de prazer nos atos que costumam proporcioná-la), idéias paranóides (de perseguição, por exemplo) comportamento e pensamentos estranho ou excêntrico, tendência ao isolamento, períodos transitórios ocasionais quase psicóticos com ilusões intensas, alucinações auditivas, visuais ou outras, e idéias pseudodelirantes, ocorrendo em geral sem fator desencadeante exterior. Os portadores deste diagnóstico muitas vezes crêem ter habilidades extra-sensoriais ou que eventos não relacionados se relacionam a eles de alguma forma importante.
Eles, algumas vezes, se empenham em comportamento excêntrico e têm dificuldades em se concentrar por longos períodos de tempo.
Suas conversas geralmente são excessivamente elaboradas e difíceis de acompanhar.
Segundo os critérios do CID.10, para o diagnóstico do transtorno esquizotipico, é necessário que o indivíduo tenha manifestado ao longo de um período de pelo menos dois anos, ao menos quatro dos seguintes, de modo contínuo ou repetido: 
1) Idéias de referência (excluindo delírios de referência);  
2)Crenças bizarras ou pensamento mágico que influenciam o comportamento e são inconsistentes com as normas da subcultura do indivíduo (por ex., superstições, crença em clarividência, telepatia ou "sexto sentido"; em crianças e adolescentes, fantasias e preocupações bizarras);  
3)Experiências perceptivas incomuns, incluindo ilusões somáticas; 4)Pensamento e discurso bizarros (por ex., vago, circunstancial, metafórico, superelaborado ou estereotipado);  
5)Desconfiança ou ideação paranóide; 
6)Afeto inadequado ou constrito;  
7)Aparência ou comportamento esquisito, peculiar ou excêntrico;  
8)Não tem amigos íntimos ou confidentes, exceto parentes em primeiro grau;  
9)Ansiedade social excessiva que não diminui com a familiaridade e tende a estar associada com temores paranóides, ao invés de julgamentos negativos acerca de si próprio.
O transtorno de personalidade esquizotípica ocorre em 3% da população geral, sendo um pouco mais comum em homens.

TRANSTORNO DELIRANTE (F22):

O sintoma mais intenso nesta patologia é a presença de delírios, em especial à paranóia. Este termo em psiquiatria significa uma extrema suspeita geralmente não baseada em uma avaliação realista da situação. Contudo, nem sempre está relacionada à idéia de perseguição.
Seus delírios diferem dos delírios esquizofrênicos devido à sua natureza não-bizarra, como por “ser perseguido pelo FBI” (algo possível, não-bizarro) e “ser controlado por marcianos” (algo impossível, bizarro). Esses delírios são persistentes, geralmente duram toda a vida e, para diagnóstico, eles devem estar presentes há pelo menos três meses.
Eles também diferem dos esquizofrênicos por não apresentarem alucinações (visuais, auditivas) proeminentes (exceto se relacionadas ao tema do delírio), embotamento afetivo e demais transtornos de pensamento.
Ainda há informações precisas insuficientes sobre a prevalência deste transtorno na população, mas a melhor estimativa situa-se em torno de 0,03%.
Os tipos de transtorno delirante são:
- tipo erotomaníaco: neste tipo, o delírio central é a idéia de que a pessoa afetada é intensamente amada por uma outra pessoa que muitas vezes não a conhece – geralmente alguém famoso, como um ator ou cantor. Esta idéia torna-se o foco central da vida da pessoa afetada, podendo inclusive, imaginar mensagens indiretas deixadas pelo objeto desejado (por exemplo, uma frase utilizada em uma entrevista pode ser entendida como uma mensagem indireta ao portador). Geralmente o portador tenta contato com o objeto de desejo (cartas, e-mails, telefonemas). Não medem esforços para manter contato com a pessoa desejada.
- tipo grandioso: também conhecido como megalomania. A forma mais comum deste delírio é a crença de ter um talento ou conhecimento imenso, mas não reconhecido, ou de ter feito uma grande descoberta. Pode ainda ter o delírio de que tem relacionamento especial com alguém importante, como o presidente da República.
- tipo ciumento: também conhecido como síndrome de Otelo, afeta mais homens. É um transtorno raro (presente em menos de 0,2% dos pacientes psiquiátricos). O inicio geralmente é súbito, e os sintomas, às vezes podem resolver-se apenas depois da separação ou morte do cônjuge. Este delírio pode levar a um abuso físico e verbal significativo contra o parceiro, e até mesmo ao assassinato. Quando a pessoa é afetada por este tipo de transtorno, “evidências” como roupas desarrumadas ou manchas na roupa de cama podem ser coletadas e usadas para justificar o delírio. O portador pode tomar medidas extraordinárias para intervir em uma imaginária infidelidade (por exemplo, o marido pode trancar a esposa em casa para que ela não o traia). Estes podem ainda secretamente seguir e investigar o parceiro, visando confirmar a suspeita (ou melhor, certeza) de infidelidade.
- tipo persecutório: é o tipo mais comum de transtorno delirante. O delírio de perseguição pode ser simples ou mais elaborado e, geralmente, envolve um único tema ou uma série de temas interligados, como ser vitima de uma conspiração, ser traído, espionado, seguido, envenenado ou drogado, maltratado ou prejudicado na busca de objetivos a longo prazo.
O individuo com este tipo de delírio frequentemente sente rancor e raiva, podendo recorrer à violência contra aqueles que, na sua opinião, estão causando-lhe danos.
- tipo somático: também conhecida como psicose hipondríaca monossintomática. A diferença da hipocondria está no grau de convicção dos pacientes. As aflições delirantes referem-se a infecções (por bactérias, vírus, parasitas), infestação de insetos na pele, dismorfofobia (ex. nariz e seios malformados), delírios envolvendo odores corporais da pele, boca ou vagina, ou que certas partes do corpo não estão funcionando, como intestino grosso, por exemplo. Afeta igualmente homens e mulheres e é considerado raro.

TRANSTORNO PSICÓTICO BREVE ou EPISÓDIO PSICÓTICO BREVE (CID F23):

O DSM-IV (4ª edição do Diagnostical and Statistical Manual of Mental Disorders) combina dois conceitos no diagnóstico do transtorno psicótico breve: em primeiro lugar, a curta duração (pelo menos um dia e inferior a um mês, sendo que ao final, o individuo retorna ao seu estado anterior); os sintomas podem ou não reunir características clássicas da esquizofrenia, como delírios, alucinações, discurso desorganizado (por ex., descarrilamento ou incoerência freqüentes), ou comportamento amplamente desorganizado ou catatônico. Em segundo lugar, o transtorno pode ter-se desenvolvido em resposta a um severo estressor psicológico ou grupo de estressores, muito embora seu diagnóstico seja complexo.
Os estressores desencadeantes são acontecimentos vitais importantes, como por exemplo, a perda de um membro da família, ou acidente automobilístico severo. Podem ainda ser desencadeados por uma série de eventos modestamente estressantes (por exemplo, problemas no ambiente de trabalho aliado ao término de um relacionamento).

O Transtorno Psicótico Breve pode aparecer na adolescência ou início da idade adulta, ocorrendo em média ao final da década dos 20 anos ou início dos 30.
Alguns clínicos indicam que este transtorno é mais comum em pessoas de classes econômicas mais baixas e em pacientes com transtornos de personalidade pré-existentes (mais freqüentes, histriônica, narcisista, paranóide, esquizotípica e borderline). Pessoas que passam por desastres ou por importantes mudanças culturais (por exemplo, imigrantes) também podem compor o grupo de risco.
Os estressores desencadeantes são acontecimentos vitais importantes, como por exemplo, a perda de um membro da família, ou acidente automobilístico severo. Podem ainda ser desencadeados por uma série de eventos modestamente estressantes, ao invés de um evento único.
Por definição transtorno ocorre por um curto período de tempo, mas sua presença pode significar uma vulnerabilidade mental do portador.
Muito embora tenha um bom prognóstico (previsão de que a pessoa se recupere bem), podem vir a apresentar posteriormente esquizofrenia ou transtorno de humor, podendo ainda permanecer com o diagnóstico de transtorno de humor após a remissão dos sintomas psicóticos.
Ocasionalmente o portador da patologia pode apresentar sintomas depressivos após a resolução dos sintomas psicóticos. O suicídio é uma preocupação na fase psicótica e na fase depressiva pós-psicótica.

Obs. Para melhor compreensão deste post, aconselho a leitura dos posts  Transtorno Afetivo Bipolar e Esquizofrenia.


FONTES:

Kaplan, HI. Sadock, BJ. Grebb, JA. Compêndio de Psiquiatria: Ciências do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 7ª ed. Artmed. São Paulo, 2005.

Campos, S. Tipos de Esquizofrenia. in Medicina Avançada, internet, São Paulo. Disponível em http://www.drashirleydecampos.com.br/noticias/13255 , atualizado em 2004.

Ballone, GJ.: Transtorno Delirante. in PsiqWeb, Internet, São Paulo. Disponível em: http://virtualpsy.locaweb.com.br/dsm_janela.php?cod=39 , atualizado em 2005.







quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

DEPOIMENTO DE UMA ESQUIZOFRÊNICA


 "Um dia, ela descobriu sozinha que era duas!
A que sofre depressa, no ritmo intenso e atroz da noite,
e a que olha o sofrimento do alto do sono, do alto de tudo,
balançada num céu de estrelas invisíveis
sem contato com o chão"


Cecília Meireles






Na adolescência tive o primeiro surto, mas foi diagnosticado como depressão grave.
Há seis anos atrás, tive o segundo surto, e tentei suicídio duas vezes. Fui internada em um Sanatório, e após passar por quatro psiquiatras, obtive o laudo definitivo: Esquizofrenia Paranóide.
O inicio foi difícil, e é até hoje. Precisei parar de trabalhar. Eu era Técnica de Qualidade em uma Multinacional, havia acabado de ser promovida e não aceitava estar na condição de auxilia-doença, não suportava precisar deixar meu trabalho que eu tanto gostava.
Meu marido foi em vários lugares, pois diziam ser espiritual, vários representantes de diferentes igrejas estiveram na minha casa, mas nada até agora me curou.
Mudei varias vezes de antipsicóticos, antidepressivos, ansiolíticos, cada com  efeito colateral pior que o outro. Engordei 15 quilos.
Tinha medo de precisar voltar ao Sanatório, medo de surtar novamente, medo de perder meu marido, mas ele até hoje nunca me abandonou.
Tenho sintomas como delírios, alucinações visuais, auditivas (vozes), olfativas (cheiro de coisa estragada, de coisa podre), confusão mental, embotamento afetivo, apatia... As vozes dizem sempre o pior: suicídio. Humilham-me. Comparam-me com o que eu era e o que eu sou hoje, etc.

O momento mais difícil foi no Instituto “B” (um sanatório) através do SUS. É muito difícil ficar lá. São várias patologias misturadas: bipolares, alcoólatras, boderlines, dependentes químicos, esquizofrênicos... Todos misturados, e cada um com uma necessidade.
Sofri muito com dois dependentes químicos... Existe uma lei "velada" que passa despercebido pelo setor administrativo, e se você falasse era pior, pois você sofria  represália dos internos (desses dois).
Sou muito sensível, e sofri muito nas mãos dos "chefes", que são os internos mais antigos e mandam no pedaço.
Quando meu marido me enviava dinheiro para gastar na cantina, eu era obrigada a gastar em cigarros para eles. Cheguei a apanhar de um deles. Levei um tapa no rosto que me dói ainda hoje.
Tudo que eu recebia de alimento tinha que ser dividido com todos.
Eu não falava nada para o meu marido, pois tinha medo. Até que um dia ele percebeu, e com muito esforço financeiro me colocou na área particular. Lá eu tive atenção, as patologias eram separadas, tínhamos terapia ocupacional... Mas não conseguiam acertar a dose do antipsicóticos, então tentei suicídio lá dentro, na piscina.
Fui para a área de isolamento e fui submetida a várias sessões de eletroconvulsioterapia, aí eu melhorei, fiquei mais calma.

Tenho algumas técnicas que utilizo para controlar os sintomas: para as vozes, eu ouço musica alto e aprendi que elas são frutos da minha mente.
As alucinações visuais são mais difíceis, porque se estou vendo um homem de terno cinza, estou vendo e pronto! Aprendi a tocar levemente as pessoas para ver se elas são reais ou imaginárias.
Se estiver vendo cachorros de tamanho da porta do meu quarto, penso: “não existem cachorros desse tamanho!”.
A alucinação é terrível, pois descontrola a gente; dá medo...
Para as alucinações olfativas eu ainda não descobri um jeito para melhorar, infelizmente.

Estou sempre em baixa, só fico em alta quando estou fora de casa, vendo coisas diferentes, pessoas reais. Em casa fico sozinha o dia inteiro.
Tenho um filho, mas ele faz Agronomia em Botucatu, namora e mora em uma república. Sempre que pode vem me ver.
Meu marido trabalha em Jundiaí, e só chega em casa à noite. Antes ficava com minha mãe, mas ela faleceu faz oito meses.

Defino minha vida como triste. Dependente de remédios, com confusão mental, com apatia. Falta-me raciocínio... Vivo com efeito colateral dos medicamentos.
Só estou bem quando estou na equoterapia, ou quando chega à noite e meu marido chega do trabalho, Conversamos, jantamos juntos, mas logo tenho sono por causa do ansiolíticos, então vou dormir e ter pesadelos. As horas de sono oscilam: tem dia que durmo muito, tem dia que tenho insônia.

É mais ou menos assim, um dia de cada vez... Mesmo sabendo que existem patologias piores, sou muito triste.


Depoimento cedido por Dina Doiche, casada, residente em Jaguariúna - interior de São Paulo.

NÃO SOU ESQUIZOFRÊNICA! (POEMA)



Um dia desses ouvi que não sou esquizofrênica, que estou esquizofrênica!
Então, estando esquizofrênica, posso transgredir,

Mudar conceitos pré-estabelecidos.
Ver tudo de uma só cor,
Viajar pelas estrelas, subindo pelo teto do meu quarto.
Ter amigos naturais, irreais, sobrenaturais...
Ter sussurros e vozes em meus ouvidos, sem que ninguém escute.
Ser eu e ser outra,
Poder viajar sem ter comprado passagem,
Ir a lugares onde só eu e eu estivemos.
Atravessar portas, janelas, muros e paredes.
Falar com aquela pessoa ao telefone. Mesmo com ele no gancho.
Ser bela e ser horrível.
Ver o riacho correr até o mar...
Ver o passado, estar no passado. Sem lá ter estado.
Ser perseguida e perseguir.
Ter toda coragem do mundo.
Sentir a falta de coragem.
Ser só e nunca estar só, sempre estar acompanhada,
Ser iludida por falsas ilusões.
Ter esperanças do que não posso esperar.
Ser criativa, sem ter necessidade de criar, nem obrigação.
Sonhar, delirar, alucinar, sem precisar decifrar.
Pensar como criança, ler livros de criança, ter a doçura de criança.
Mas e no dia que deixar de estar esquizofrênica o que eu serei?
O que estarei?
Estarei feliz?


Por Dina Doiche (Julho 2007).

ESQUIZOFRENIA (CID F20.0 a F20.9)








"O pesadelo final da esquizofrenia não é não saber o que é verdadeiro...
Imagine que, de repente, você se desse conta de que as pessoas, os lugares, os momentos mais importantes para você, não tivessem sumido ou morrido, mas pior, nunca tivessem existido? O inferno deve ser assim..."
 (Trecho do filme "Uma mente brilhante")





Imagine que em uma noite você está em seu quarto, e de repente começa a ouvir vozes. Você não sabe de onde elas estão vindo, mas elas são muito claras. Elas te humilham, dizem que você está ocupando espaço na terra, que é um lixo, que só causa sofrimentos às pessoas, que você já foi uma pessoa brilhante e hoje não é nada, e que o melhor seria por fim à sua vida...
Então de repente, no meio da noite, você vê um homem desconhecido parado à sua porta. Você não sabe por onde ele entrou, mas ele está lá! Você o vê nitidamente e tem certeza de que ele está querendo fazer-lhe algo de mal!
Qual seria sua reação nesta situação? Ficaria calmo? Entraria em pânico? Correria? Tentaria agredir o invasor para se defender?
E estas vozes? De onde vem? Por que te humilham tanto? Quem são? Pessoas, anjos, demônios? O que faria em relação a elas; ficaria paralisado e com medo, ou tentaria vasculhar a casa toda até encontrar quem está falando coisas tão horríveis?
Mas e se para piorar a situação, esta voz lhe dissesse: pegue uma faca e corte seus pulsos! Você iria obedece-la?
Mas o tormento ainda não acabou... No dia seguinte, após uma noite em claro, você sai de casa para trabalhar.
No caminho, nota que está sendo perseguido. Olha para os lados em busca de ajuda, e percebe que todos estão falando de você ou tramando uma forma de fazer-lhe mal.
Desesperado, você entra em um ônibus, e descobre que a pessoa ao lado lê seus pensamentos; ela sabe tudo o que fez e o que está pensando, e assim como as pessoas na rua, os demais passageiros também estão à sua caçada.
Assustado, vai pedir socorro ao motorista, e vê que o rosto dele está totalmente desfigurado, como um monstro. 
Você está cercado por todos os lados. Pessoas, criaturas estranhas e vozes  das quais você desconhece a origem, estão empenhadas em uma única missão: pegá-lo!
Cena de um filme de terror? NÃO! Este é o dia-a-dia de boa parte dos esquizofrênicos.
Pode imaginar a força que o portador desta patologia precisa empregar para conviver com tudo isso, mantendo o controle de sua vida, de seus atos, suas emoções, enfim, para manter sua própria sanidade?


O QUE É ESQUIZOFRENIA E QUAIS SEUS PRINCIPAIS SINTOMAS?

A palavra esquizofrenia é resultado da junção dos termos gregos skizo (divisão) e phrenos (espírito / mente). Doença da "divisão do espírito" ou "divisão da mente" ou ainda "mente dividida".
Com cerca de 1 milhão de vítimas e 56 000 novos casos a cada ano no Brasil, a esquizofrenia é uma psicose devastadora. É uma patologia psiquiátrica que se caracteriza por uma combinação de sinais e sintomas, mas isso não significa que todos estejam presentes. Os sintomas característicos permanecem por muito mais tempo, muitas vezes, alguns persistem pelo resto da vida da pessoa. No entanto estes sintomas não ocorrem exclusivamente na esquizofrenia; ela difere de muitos outros distúrbios psiquiátricos em que geralmente existe uma ÚNICA característica proeminente (a depressão, por exemplo, caracteriza-se por humor pouco eufórico; o TAB pelas variações de humor; o distúrbio de pânico, pela presença de ataques de pânico, etc). No caso da esquizofrenia, existe um leque de caracteristicas, e nenhuma delas é exclusividade desta patologia, e isso dificulta seu diagnóstico.
Além de todos os sintomas e das caracteristicas definidoras da doença, o mais notável é a total  incompreensibilidade e inacessibilidade que o paciente provoca nas outras pessoas. É como se o esquizofrênico estivesse imerso em seu próprio e confuso mundo, totalmente inacessível aos demais.
A idade comum de início da esquizofrenia é o fim da adolescência e início da idade adulta, podendo começar até aproximadamente 45 anos. Casos raros se dão após essa idade ou na infância. 
Mulheres geralmente demoram mais para apresentar os sintomas da esquizofrenia e tem prognóstico melhor.
Os surtos esquizofrênicos duram em média de um a seis mêses, e após este periodo, o portador  geralmente mergulha em um periodo de depressão profunda, pois após o termino dos sintomas, o horror continua. A lembrança dos acessos geralmente é forte demais para ser cancelada, e o doente passa a viver na expectativa de que outros ocorram.
É também uma patologia comum, ocorrendo entre 0,5 a 1% da população.



O QUE SÃO SINTOMAS NEGATIVOS E SINTOMAS POSITIVOS?

Os sintomas característicos da esquizofrenia podem ser agrupados, genericamente, em 2 tipos: positivos e negativos.
Os sintomas positivos são os mais floridos e exuberantes, tais como as alucinações (mais freqüentemente, as auditivas e visuais e, menos freqüentes as táteis, e olfativas), os delírios (impressão de que estão sendo perseguidos, sentimentos de grandeza, de ciúmes, somáticos, místicos, fantásticos), perturbações da forma e do curso do pensamento (como incoerência, prolixidade, desagregação), comportamento desorganizado, bizarro, agitação psicomotora e mesmo negligência dos cuidados pessoais.
Os sintomas negativos são, geralmente, de déficits, de perda, ou seja, a pobreza do conteúdo do pensamento e da fala, embotamento ou rigidez afetiva, prejuízo do pragmatismo, incapacidade de sentir emoções, incapacidade de sentir prazer, isolamento social, diminuição de iniciativa e diminuição da vontade.
Para simplificar, podemos dizer que os sintomas positivos são aspectos que deveriam estar ausentes, mas que estão presentes na pessoa (o normal seria que uma pessoa não tivesse alucinações auditivas, mas ela tem); já os negativos, são aspectos que o esquizofrênico deveria ter, mas não tem ou o tem de forma deficitária (ela deveria ser capaz de relacionar-se com as demais pessoas, mas não tem esta capacidade ou a tem de forma deficitária).


QUAIS SÃO OS TIPOS DE ESQUIZOFRENIA?

De acordo com o DSM.IV*, existem 5 tipos de Esquizofrenia:

Esquizofrenia Paranóide

É a mais comum e de melhor prognóstico (que menos debilita) das esquizofrenias, sobretudo em relação ao funcionamento ocupacional e à capacidade para ter uma vida independente. Predominam sintomas positivos, como alucinações e enganos, com uma relativa preservação do funcionamento cognitivo e do afeto. O início tende a ser mais tardio que o dos outros tipos.
O mais freqüente dos sintomas são as alucinações auditivas - o paciente ouve vozes que podem ser conhecidas ou não, que dizem frases que podem compreensíveis ou não, sendo que estas frases podem trazer idéias positivas (dizer que a pessoa é melhor que todos, que trata-se da voz Divina) ou negativas (frases depreciativas, muitas vezes incitando o suicídio, podendo muitas ser  atribuída pelo paciente a demônios, por exemplo), ou ainda, falam sobre ele, ou o acompanham em suas atividades com comentários. Muitas vezes essas vozes dão ordens de como agir em determinada circunstancia. As alucinações visuais também são comuns, porém menos freqüentes que as auditivas. Nelas, o paciente pode ver pessoas que na verdade não estão no local, imagens aberrantes, alterações nas pessoas “reais” (por exemplo, olhar para alguém e notar que seu rosto está desfigurado, ou ainda que a pessoa “transformou-se” em outra pessoa ou ser, etc).
O portador apresenta ainda delírios de perseguição ou grandeza (como pensar que é Deus ou santo).
São pessoas tensas, desconfiadas, e reservadas, podendo ter comportamentos hostis e agressivos, caso sintam que estão sendo perseguidos ou ameaçados. É muito comum que se recusem a sair de casa, por medo de que lhes aconteça algo, por sentirem-se perseguidos, por temerem as demais pessoas, por imaginarem que os demais estão falando ou rindo dele, etc.
Este grupo é o que apresenta a menor regressão de suas faculdades mentais, das respostas emocionais, podendo relacionar-se bem socialmente.

Esquizofrenia Catatônica

A característica essencial da esquizofrenia catatônica, segundo o DSM-IV, são:
a) acentuada perturbação psicomotora, que pode envolver imobilidade motora, atividade motora excessiva aparentemente desprovida de sentido e não é influenciada por estímulos externos;
b) mutismo (incapacidade de falar);
c) ecolalia: A ecolalia é a repetição patológica, tipo papagaio e aparentemente sem sentido, de uma frase ou palavra que outra pessoa acabou de pronunciar;
d) maneirismos: caracterizada pela dicção em tom excêntrico (declamatório, lúgubre, pedante, rebuscado, solene) ou por gestos ou poses despropositadas, espectaculares, exageradas ou artificiais;
e) ecopraxia: A ecopraxia é a imitação repetitiva dos movimentos de outra pessoa;
f) peculiaridades dos movimentos: manifestadas pela adoção voluntária de posturas inadequadas ou bizarras ou por trejeitos faciais proeminentes;
Imobilidade motora
g) imobilidade motora pode se manifestar por catalepsia (flexibilidade cérea, ou seja, movimentos passivos, podendo-se moldar a pessoa numa posição que ela depois mantém, como se a pessoa fosse feita de cêra, No exêmplo da foto, o paciente foi colocado em uma posição totalmente incômoda, e que foi mantida pelo mesmo) ou estupor (estado em que a consciência ou sensibilidade é apenas parcial, ou ainda podendo haver total insensibilidade, além de acentuada diminuição  da capacidade de exibir reações motoras);
h) negativismo, manifestado pela manutenção de uma postura rígida
contra tentativas de mobilização, ou resistência a toda e qualquer
instrução;
i) Obediência ou imitação automáticas, na qual o individuo responde a uma ordem, como por exemplo "levantar o braço", sem oferecer nenhuma resistência, ou sem raciocinar sobre o ato que está realizando.

Durante o estupor severo ou na excitação catatônica, oa pessoa necessita de cuidadosa supervisão, a fim de se evitar danos a si mesmo ou a outros. Existem riscos potenciais de desnutrição, exaustão e ferimentos causados pelao próprio individuo.
São descritas as formas estuporosa ou inibida e a excitada, além de forma rara de catatonia periódica
Na catatonia estuporosa, a pessoa permanece em estado de completo estupor, com ausência de qualquer expressão psíquica ou física, ou apresentam pronunciada diminuição de suas atividades e movimentos espontâneos. Podem chegar a completo mutismo. Negativismo, estereotipia, ecopraxia e obediência automática podem também estar presentes. Muitas vezes, têm que ser alimentados através de sondas e mesmo suas necessidades fisiológicas são interrompidas. Entretanto, depois de longos períodos de imobilidade, repentinamente e sem provocação, podem apresentar breve eclosão de comportamento explosivo e violento. 
Na forma excitada os pacientes apresentam extrema agitação psicomotora. Falam e gritam quase continuamente. Suas produções verbais são freqüentemente incoerentes e seu comportamento parece ser influenciado mais por estímulos internos do que pelos do ambiente. Existe o risco de colapso por exaustão completa. 
A forma periódica consiste em recorrências regulares de estados estuporosos ou excitados, inicialmente com intervalos praticamente assintomáticos.
Este tipo de esquizofrenia tem tratamento bem difícil.

Esquizofrenia Desorganizada ou Hebefrênica

Neste grupo estão inclusos os pacientes que têm problemas de concentração, predominância de sintomas negativos, incoerência freqüente do pensamento, vagueza acentuada das associações, pobreza do raciocínio, além de discurso infantil e bastante desorganizado. As vezes fazem comentários fora do contexto, e se desviam totalmente do tema da conversação.
O afeto é embotado ou grosseiramente inapropriado, já que este grupo de esquizofrênicos expressam pouca ou total falta de emoção, ou ainda, resposta emocional inadequada.
Seu comportamento grosseiramente desorganizado. O individuo muitas vezes põe-se a gargalhar sem motivo aparente, rindo-se exageradamente em ocasiões solenes, rompendo a chorar por nenhuma razão em particular, etc.
É notada ainda, uma regressão a comportamentos mais primitivos, desinibidos, ativos, mas desprovido de propósito e pouco construtivo.
Outros aspectos associados incluem trejeitos faciais, maneirismos (atitudes afetadas) e outras estranhezas do comportamento.
Neste grupo também é freqüente a aparição de delírios, como por exemplo, que o vento se move na direção que eles querem, que se comunicam com outras pessoas por telepatia, etc.
Outros sintomas relevantes são: trejeitos, maneirismos, demorada contemplação em espelhos, e outros comportamentos estranhos.
Apesar das atitudes desinibidas, estes pacientes apresentam afastamento social, já que não sentem, ou ainda, sentem pouco interesse em contato com as demais pessoas.
Pode-se imaginar, em virtude da exuberância de seus sintomas, que seu tratamento seja menos dificultoso que o catatônico. Contudo, é o tipo que tem tratamento mais complexo. 

 
Esquizofrenia Residual

Este termo é usado para se referir a uma esquizofrenia que já tem muitos anos (ou seja, consiste no estado crônico da doença), havendo progressão clara de um quadro inicial para um quadro tardio, sendo que o portador já apresenta muitas seqüelas.
O prejuízo que existe na personalidade destes pacientes já não depende mais dos surtos agudos, pois são prejuízos completamente instaurados; não sendo dependente de um surto.
É caracterizado pela presença de evidências continuas de perturbação esquizofrênica, porém sem sintomas suficientes para a classificação em algum outro tipo de esquizofrenia. As condições para este tipo de esquizofrenia são: pouco ou nenhum delírios ou alucinação, sintomas “negativos” comumente irreversíveis, tais como lentidão psicomotora, hipoatividade, embotamento afetivo (a pessoa não sente normalmente as emoções; que parecem apagadas ou pouco intensas e, por isso, quase não se percebe o que ela realmente sente), passividade e diminuição da volição (falta de iniciativa / vontade de fazer algo), pobreza da quantidade e do conteúdo do discurso, pouca comunicação não-verbal (face inexpressiva, pouco contato ocular, baixa modulação da voz e poucos gestos), falta de cuidados pessoais, desempenho social ruim (retraimento social), pensamento ilógico, comportamento excêntrico, crenças incomuns e dificuldade em fazer associações.


Esquizofrenia Indiferenciada

Apesar de classificação das esquizofrenias, é bom destacar que os portadores nem sempre se encaixam perfeitamente numa de estas categorias. A estes individuos pode-se atribuir o diagnóstico de esquizofrenia indiferenciada.
Neste tipo de esquizofrenia, os sintomas psicóticos apresentados preenchem os critérios diagnósticos gerais para a esquizofrenia, mas  não correspondem a nenhum subtipo em especifico, ou ainda, apresentam caracteristicas de mais de um deles, mas sem uma clara predominância de um conjunto particular de características diagnósticas para ser classificada em um grupo (paranóide, catatônica, etc).
Apresenta habitualmente um desenvolvimento rápido, com um isolamento social intenso e uma diminuição no desempenho laboral e intelectual; é freqüentemente caracterizada por apresentar sintomas de todos os grupos: delírios e alucinações, distúrbio do pensamento, comportamento estranho e sintomas negativos. Observa-se nestes pacientes uma certa  apatia e indiferença ao mundo exterior.
Também recebe o nome de esquizofrenia atípica.

Esquizofrenia Infantil

É um tipo raro de esquizofrenia (0,5% dos casos), não incluso no DSM. Ocorre bem cedo na vida do indivíduo (os primeiros problemas surgem entre os 6 e 7 anos de idade). É bastante severa, tendo sintomas e disfunções mais intensas, além de um tratamento mais difícil. Ainda não foi perfeitamente elucidado o mecanismo que determina a esquizofrenia infantil. Fatores ambientais não exercem qualquer influência sobre o aparecimento da doença, o que leva a crer que a base dela é puramente genética. Características psicológicas incluem falta de interesse, fraco contato pelo olhar, ecopraxia (imitação repetitiva dos movimentos de outra pessoa), ecolalia (Repetição tal qual papagaio do que as pessoas dizem, com eliminação de qualquer evidência de entendimento do que foi mencionado e com perda da fala espontânea), baixo QI e outras anormalidades.

Existe ainda o Transtorno Esquizofreniforme e o Transtorno Esquizoafetivo, que não constituem esquizofrenia, muito embora possuam características da mesma. Estes serão tratados nos próximos posts.

* O Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais é uma publicação da American Psychiatric Association, Washington D.C., sendo a sua 4ª edição conhecida pela designação “DSM-IV”.

Esquizofrenia Simples

Considerada pouco comum, seu início ocorre lentamente e insidiosamente, porém de forma progressiva, havendo o desenvolvimento de excentricidades de conduta, inabilidade para cumprir demandas da sociedade e declínio da performance.
Normalmente, começa na adolescência com emoções irregulares ou pouco apropriadas, pode ser seguida de um demorado isolamento social, perda de amigos, poucas relações reais com a família e mudança de carácter, passando de sociável a anti-social e terminando em depressão.
Nesta forma da esquizofrenia não se observam muitos surtos agudos. Nestes casos, os sintomas negativos (como o embotamento afetivo) ocorrem isoladamente, sem sintomas positivos e desorganização de conduta ou  pensamentos. 
Não há uma diferença bem delimitada entre as fases aguda e crônica. Alguns autores equivalem esse diagnóstico ao transtorno de personalidade esquizotípica, caracterizado por afetividade superficial ou imprópria, falta de vontade e comportamento excêntrico ou desviante, com tendência ao isolamento e desinteresse social. Os sintomas negativos ocorrem mesmo sem um surto psicótico que os preceda. 
Como ela é pouco comum, e sua existência ainda é discutida entre os especialistas (muitos acham que não existem critérios suficientes para criar este sub-tipo de esquizofrenia), a esquizofrenia simples está descrita no CID, mas não no DSM-IV.


Esquizofrenia Refratária (ou resistente) e esquizofrenia responsiva:

Como já dito, a esquizofrenia é uma doença crônica. Isto quer dizer que seus sintomas permanecem presentes por um longo periodo de tempo, ou ainda, por toda a vida (assim como a hipertensão e o diabetes).
Ela pode ser classificada como RESPONSIVA ou REFRATÁRIA (também conhecida como resistente).
Na RESPONSIVA, o individuo responde ao tratamento, isto é, a pessoa faz uso dos medicamentos e responde positivamente ao tratamento (não tem surtos, ou os tem em menor quantidade / intensidade e por um periodo mais curto, do que se não tomasse medicamento algum), bem como diminuição de alguns sintomas, e/ou desaparecimento de outros.
No caso da esquizofrenia REFRATÁRIA, a pessoa não responde ao tratamento, ou a melhora dos sintomas é insignificante.
Estudos apontam indices entre 10 e 30% de esquizofrênicos que, mesmo seguindo o tratamento, não apresentam melhoras.
Contudo, a falta de resposta aos medicamentos pode estar associada a outros fatores, como a não adesão ao tratamento, com tomadas irregulares da medicação e interrupções frequentes, dosagens insuficientes ou excessivas, gerando baixa eficácia ou muitos efeitos colaterais, abuso de drogas e álcool, estresse crônico em decorrência de fatores sociais e familiares e gravidade da própria doença.
Muitas vezes o médico diagnostica uma esquizofrenia refratária indevidamente, pois o paciente não segue o tratamento de maneira adequada. O especialista pode ser induzido a este erro, pois o paciente não segue o tratamento corretamente, sendo assim, não se pode afirmar com certeza se ele responderia bem ou não ao tratamento.
Sendo assim, um individuo pode receber a principio um diagnóstico de esquizofrenia paranóide, e após, receber o diagnóstico de esquizofrenia refratária. Isso quer dizer que o paciente teve o diagnóstico inicial, mas não respondeu ao tratamento, ou quase não teve melhora dos sintomas.
Para "fechar" este diagnóstico, o médico deve tentar pelo menos dois tipos de antipsicóticos diferentes, sem que o paciente não apresente nenhuma melhora, ou uma melhora insignificante.
A pessoa deve apresentar sintomas positivos moderados a graves, predominância de sintomas negativos (em estágios mais avançados), dificuldades cognitivas (diminuição da capacidade de raciocinio, aprendizagem, etc), além de não conseguir retornar a um estado que seja mais próximo daquilo que ele era antes de apresentar os sintomas da esquizofrenia (ou seja, a pessoa não volta a ser nem de longe aquilo que era antes do inicio dos sintomas).
Sintomas como delírios e alucinações, alterações graves do comportamento, desorganização mental marcante e isolamento social e emocional progressivos estão presentes. A sensação que familiares têm nessa hora é a de que o tratamento não está funcionando, ou mesmo, que está trazendo mais malefícios do que benefícios em decorrência dos efeitos colaterais. 


Os critérios utilizados para este diagnóstico são:

(1) Pelo menos um dos seguintes deve estar presente:

(a) eco do pensamento (experiência de que os próprios pensamentos são repetidos dentro da cabeça da pessoa. O intervalo que decorre entre o pensamento original e o seu eco é usualmente de uns poucos segundos. O pensamento repetido, embora idêntico no seu conteúdo, pode ser sentido como ligeiramente alterado em termos de qualidade), inserção ou roubo do pensamento (fenômeno pelo qual o indivíduo tem a vivência que pensamentos reconhecidos como alheios se intrometem nos seus processos mentais.) ou irradiação do pensamento (fenômeno no qual o individio crê que as demais pessoas lêem ou ouvem seus pensamentos);
(b) delírios de controle (por DEUS, anjos, extra-terrestres), influência ou passividade, claramente referindo-se ao corpo ou aos movimentos dos membros ou a pensamentos, ações ou sensações específicos; percepção delirante;
(c) vozes alucinatórias comentando o comportamento do paciente ou discutindo entre elas sobre o paciente ou outros tipos de vozes alucinatórias vindo de alguma parte do corpo;
(d) delírios persistentes de outros tipos que sejam culturalmente inapropriados e completamente impossíveis (p. ex. ser capaz de controlar o tempo ou estar em comunicação com alienígenas).

OU

(2) Ou pelo menos dois dos seguintes:

(a) alucinações persistentes, de qualquer modalidade, quando ocorrendo todos os dias, por pelo menos um mês, quando acompanhadas por delírios (os quais podem ser superficiais ou parciais), sem conteúdo afetivo claro ou quando acompanhadas por idéias superestimadas persistentes;
(b) neologismos, interceptações ou interpolações no curso do pensamento, resultando em discurso incoerente ou irrelevante;
(c) comportamento catatônico, tal como excitação, postura inadequada, flexibilidade cérea, negativismo, mutismo e estupor;
(d) sintomas “negativos”, tais como: apatia marcante, pobreza de discurso embotamento ou incongruência de respostas emocionais (deve ficar claro que estes sintomas não são decorrentes de depressão ou medicação neuroléptica).


Vale lembrar que somente um especialista pode confirmar o diagnóstico.
Outro ponto importante, é que geralmente leva um certo tempo até que o médico consiga ajustar a medicação (tipo de medicamento e dosagem adequada ao caso). Isso não significa que a esquizofrenia é refratária, e sim, que a dose adequada ainda não foi identificada. Cada paciente tem suas particularidades, pois cada organismo é diferente. O tipo de tratamento, portanto, deve ser individual, o que pode levar tempo para ser identificado.
É comum também que a medicação que a principio fazia efeito, passar a ter uma diminuição de sua eficácia, sendo necessário um reajuste da terapia. Isso não quer dizer que a esquizofrenia "tornou-se" refratária.

SURTO PSICÓTICO NA ESQUIZOFRENIA:

Não é possível determinar a frequência das crises, que podem acontecer uma ou diversas vezes na vida do paciente. Porém, em apenas 15% dos casos não acontece um segundo surto. Os outros 85% têm crises recorrentes. Um surto não tratado pode durar mais de um ano, enquanto aqueles que têm o acompanhamento adequado duram apenas dias. Somente casos em que os pacientes respondem mal aos medicamentos podem durar mais, chegando a até 10 meses.
Durante um surto, o portador de esquizofrenia pode vir a ter alucinações (ouvir vozes ou ver coisas que não existem), apresentar delírios (sentir-se perseguido, julgar ser possuidor de poderes especiais ou então que está sendo influenciado telepaticamente por aparelhos ou pessoas, ou achar que outros falam ou riem de si). Associam-se alterações de afetividade, perda de motivação ou de vontade e comportamentos estranhos. Portanto, o surto psicótico é a perda do contato com a realidade. Alguns sintomas estão presentes fora do surto, como as alucinações auditivas ou visuais , mas o que define o surto, é perda da noção do que é real ou não. O portador pode ouvir vozes, e questionar se são reais ou alucinatórias, mas no surto, o portador tem plena convicção de que são reais
, e acredita piamente em tudo o que estas vozes falam.
A psicose esquizofrênica surge geralmente na adolescência ou no adulto jovem. Algumas vezes as pessoas têm sintomas psicóticos devido a doenças clínicas não detectadas. Por isso, deve-se obter uma história clínica e realizar um exame físico e exames de laboratório durante o diagnóstico, para descartar outras causas dos sintomas, antes de se concluir que um indivíduo tem esquizofrenia. Não existem exames laboratoriais ou de raios-X, nem os mais sofisticados, que constatem o diagnóstico de esquizofrenia (na prática servem para excluir outras doenças e não para diagnosticá-la). 

MAS O QUE CAUSA ESTE TRANSTORNO?

Sobre a causa da esquizofrenia só sabemos duas coisas: é complexa e multifatorial. Existem inúmeras teorias a esse respeito, que foram desenvolvidas por meio de observações populacionais, exames de diagnóstico por imagem, análise da dinânica social, etc.
Vamos relatar aqui as principais teorias:

Teoria Bioquímica:
A mais aceita em parte devido ao sucesso das medicações:No centro do problema está a dopamina, neurotransmissor associado às sensações de prazer e de recompensa e que é encontrado em uma das regiões cerebrais mais profundas: o mesencéfalo. Nas pessoas saudáveis, a dopamina é liberada em quantidades equivalentes para os lobos frontal e temporal – sendo que o primeiro é responsável pela elaboração do pensamento, e o segundo, pela percepção e pela memória. O cérebro do paciente com esquizofrenia, contudo, funciona como se houvesse menos dopamina no lobo frontal e mais no lobo temporal. Essa falta provoca apatia e lentidão de pensamento. Já o excesso de dopamina na região temporal provoca delírios e alucinações. Essas duas falhas contribuem para o aparecimento dos sintomas da doença.

Teoria do Fluxo Sangüíneo Cerebral:
Com as modernas técnicas de investigação das imagens cerebrais (Tomografia por Emissão de Pósitrons- TEP) os pesquisadores estão descobrindo áreas que são ativadas durante o processamento de imagens sejam elas normais ou patológicas. As pessoas com esquizofrenia parecem ter dificuldade na "coordenação" das atividades entre diferentes áreas cerebrais. Por exemplo, ao se pensar ou falar, a maioria das pessoas mostra aumento da atividade nos lobos frontais, juntamente a diminuição da atividade de áreas não relacionadas a este foco, como a da audição. Nos pacientes esquizofrênicos observamos anomalias dessas ativações. Por exemplo, ativação da área auditiva quando não há sons (possivelmente devido a alucinações auditivas), ausência de inibição da atividade de áreas fora do foco principal, incapacidade de ativar como a maioria das pessoas, certas áreas cerebrais.
A TEP mede a intensidade da atividade pelo fluxo sangüíneo: uma região cerebral se ativa, recebendo mais aporte sangüíneo, o que pode ser captado pelo fluxo sangüíneo local. Ela mostrou um funcionamento anormal, mas por enquanto não temos a relação de causa e efeito entre o que as imagens revelam e a doença: ou seja, não sabemos se as anomalias, o déficit do fluxo sangüíneo em certas áreas, são a causa da doença ou a conseqüência da doença.

Teoria Biológica Molecular:
Especula-se a respeito de anomalias no padrão de certas células cerebrais na sua formação antes do nascimento. Esse padrão irregular pode direcionar para uma possível causa pré-natal da esquizofrenia ou indicar fatores predisponentes ao desenvolvimento da doença.

Teoria Genética:


Talvez essa seja a mais bem demonstrada de todas as teorias. Nas décadas passadas vários estudos feitos com familiares mostrou uma correlação linear e direta entre o grau de parentesco e as chances de surgimento da esquizofrenia. Pessoas sem nenhum parente esquizofrênico têm 1% de chances de virem a desenvolver esquizofrenia; com algum parente distante essa chance aumenta para 3 a 5%. Com um pai ou mãe aumenta para 10 a 15%, com um irmão esquizofrênico as chances aumentam para aproximadamente 20%, quando o irmão possui o mesmo código genético (gêmeo idêntico) as chances de o outro irmão vir a ter esquizofrenia são de 50 a 60%.A teoria genética, portanto explica em boa parte de onde vem a doença. Se explicasse tudo, a incidência de esquizofrenia entre os gêmeos idênticos seria de 100%.

Teoria do Estresse:
O estresse não causa esquizofrenia, no entanto o estresse pode agravar os sintomas. Situações extremas como guerras, epidemias, calamidades públicas não fazem com que as pessoas que passaram por tais situações tenham mais esquizofrenia do que aquelas que não passaram.

Teoria das Drogas:
Não há provas de que drogas lícitas ou ilícitas causem esquizofrenia. Elas podem, contudo, agravar os sintomas de quem já tem a doença. Certas drogas como cocaína ou estimulantes podem provocar sintomas semelhantes aos da esquizofrenia, mas não há evidências que cheguem a causá-la.

Teoria Social:
Fatores sociais como desencadeantes da esquizofrenia sempre são levantados, mas pela impossibilidade de estudá-las pelos métodos hoje disponíveis, nada se pode afirmar a seu respeito. Toda pesquisa científica precisa isolar a variável em estudo. No caso do ambiente social não há como fazer isso sem ferir profundamente a ética.

ISOLAMENTO

Quase sem exceção, os pacientes esquizofrênicos se caracterizam pelo isolamento social, e pela dificuldade em manter e/ou estabelecer uma relação com as demais pessoas. De maneira geral são pessoas introspectivas, reservadas e tímidas.
Eles são originalmente mais sensíveis que os demais, e é provável que esta sensibilidade aumentada, bem como esta resposta aumentada à estimulação, esteja presente no individuo desde que era criança, ou desde o seu nascimento.
O isolamento pode ser uma manobra defensiva para diminuir o input (entrada) de estímulos excessivos (por exemplo, se a pessoa sente que é perseguida, ela se isola para que não os persigam mais. Caso sinta que as pessoas “lêem” seus pensamentos, evita contato com elas para resguardar sua privacidade).


SUICÍDIO

O suicídio é uma causa comum de morte entre os pacientes esquizofrênicos. Muitas vezes ela ocorre porque os médicos tendem a associar o suicídio mais aos transtornos de humor. Contudo, cerca de 50% de todos os pacientes esquizofrênicos tentam suicídio pelo menos uma vez durante suas vidas, e 10 a 15% deles morrem por suicídio durante um período de 20 anos após o surgimento dos sintomas, podendo acometer homens ou mulheres na mesma proporção.
Os principais fatores de risco incluem a depressão, pouca idade e alta atividade anterior à descoberta do diagnóstico (pessoas que antes desenvolviam várias atividades como formação universitária, vida profissional e social ativa, cuidados com o lar e família, etc). Este último grupo pode perceber o quanto a esquizofrenia pode privá-lo de suas atividades anteriores, e neste caso, o suicídio parece uma saída razoável.
O uso de antidepressivos, o apoio familiar, a psicoterapia em que sejam abordadas estas perdas e a participação em grupos de apoio podem ajudar o paciente a dirigir suas ambições a objetivos palpáveis, sendo assim, ferramentas importantes para prevenção do suicídio.
Muitos pacientes alegam ainda que tentaram tirar suas vidas  seguindo às ordens “das vozes” que afirmavam ser esta a melhor saída para o seu sofrimento.

ABANDONO FAMILIAR E MARGINALIZAÇÃO

Muitas vezes a família se sente desvalorizada, ou excluída socialmente, pois não são todos que dão o apoio necessário, causando sofrimento psíquico tanto para a família, quanto para o paciente.
Embora nem sempre a família se deixe levar pelo preconceito social, a maior parte se propõe a ajudar e dar a assistência necessária para o paciente, e este se vê envolvido pelo aconchego familiar, ajudando o processo de valorização familiar e reabilitação deste indivíduo, pois sem esta ajuda, fica muito mais difícil a reintegração do doente na sociedade, no entanto, é preciso relatar que, em muitos casos, o esquizofrênico sofre abandono familiar, por esta ser pouco acolhedora.
O abandono na maioria das vezes leva o individuo a viver à margem da sociedade, vivendo nas ruas ou em albergues, sem tratamento adequado, correndo riscos e a mercê de seus próprios delírios.
O problema dos desabrigados nas grandes cidades também pode ser resultante de altas hospitalares de pacientes esquizofrênicos que não estavam adequadamente encaminhados a um serviço de acompanhamento.
Embora a porcentagem exata de desabrigados esquizofrênicos seja muito difícil de ser obtida, estima-se que seja de 30% a 60%.

EXISTE TRATAMENTO?

Os últimos anos trouxeram importantes avanços no estudo da esquizofrenia. A alguns anos, os portadores desta patologia viam-se condenados aos hospitais psiquiátricos, ao isolamento e à total perda de contato com a realidade.
Não existe a cura, mas é possível obter controle dos sintomas e a reintegração do paciente.
O tratamento da esquizofrenia requer duas abordagens: medicamentosa e psicossocial.
Na abordagem medicamentosa, os antipsicóticos (ou neurolépticos) são eficazes no alívio dos sintomas da esquizofrenia em 70% dos casos.
São utilizados os chamados antipsicóticos típicos (como o haloperidol e a clorpromazina) e os atípicos (como clozapina, risperidona e a olanzapina). Podem ainda ser utilizados antidepressivos ou medicamentos que minimizem os efeitos colaterais dos antipsicóticos, quando exacerbados.
As abordagens psicossociais são necessárias para promover a reintegração do paciente à família e à sociedade. Devido ao fato de que alguns sintomas (principalmente apatia, desinteresse, isolamento social e outros) podem persistir mesmo após as crises, é necessário um planejamento individualizado de reabilitação do paciente.
Os pacientes necessitam em geral de psicoterapia, sendo que terapias alternativas, como musicoterapia, pintura, equoterapia e outros procedimentos que visem ajudá-lo a lidar com mais facilidade com as dificuldades do dia a dia.
É bastante útil que o paciente tenha conhecimentos sobre os sintomas e possíveis sofrimentos ao longo da vida, e que possa ter um papel ativo no seu tratamento e controle sobre o seu estado. Sendo por isso vantajoso que eles  sigam alguns cuidados, como por exemplo:
  • Se achar que a medicação não está ajudando, ou se sentir efeitos não desejáveis, deve-se avisar o seu médico psiquiatra;
  • Fazer psicoterapia e ter consultas regulares com seu psicólogo;
  • Ter o cuidado de conservar um ritmo de sono e vigília correto, com as horas de sono necessárias;
  • Evitar o stress;
  • Deve manter rotinas normais de higiene, alimentação, atividades físicas e de lazer;
  • Evitar substâncias psicoativas que possam interferir prejudicialmente no tratamento - como álcool e outras drogas;
  • Procurar ter horas para dormir, comer, trabalhar, ou seja, criar rotinas;
  • Permanecer em contato com as outras pessoas, não buscar o isolamento;
  • Manter o contato com o psiquiatra, psicólogo e a equipe de saúde mental;
  • Praticar esportes pelo menos uma vez por semana;
  • A participação da família é fundamental. Permitir que os familiares se reunam com o psiquiatra / psicólogo são muito importantes.
SINAIS DE BOA RECUPERAÇÃO:

As perspectivas de recuperação de um esquizofrêncico são consideravelmente mais brilhantes hoje em dia, se comparado à metade do século passado, onde apenas 2 a 4% dos pacientes esquizofrênicos se recuperavam totalmente. Os neurolépticos (antipsicóticos) e a psicoterapia permitem hoje evitar recaídas que no passado eram inevitáveis.
Um sinal importante de boa recuperação é a idade de início, quanto mais tarde mais chances de recuperação.
Nota-se que alguns pacientes recuperam-se melhor que outros, sendo que parte deles conseguem ter uma vida relativamente normal e sem surtos. Nesse grupo foram identificadas uma relação de características que pode servir como parâmetro; referência para boa recuperação. 
Esses sintomas não servem como garantia, mas aumentam as chances dessas pessoas de se recuperarem. Os sinais são os seguintes:
- Capacidade de de sentir e expressar emoções (alegria, excitação, tristeza, desespero, etc.);
- Não apresentar sentimentos de grandiosidade;
- Apresentar alucinações (as auditivas são mais frequêntes do que as visuais);
- Aparência de perplexidade no episódio agudo (perplexidade diante de delirios, alucinações, etc);
- Não se isolar; não apresentar distúrbios do pensamento;
- Idéias de perseguição e conduta de desconfiança também são sinais de bom prognóstico . 
Claro que não  há unanimidade quanto a esses sintomas, sempre existem contestações, mas como já dito, são apenas parâmetros, sem que se tornem garantias.
Sintomas catatônicos (imobilidade ou excitação excessiva) e confusão mental, apesar de aparentarem ser de maior gravidade e mais assustadores, podem se resolver mais rapidamente com tratamento adequado, deixando a pessoa sem grandes problemas.

ESQUIZOFRÊNICOS NOTÁVEIS:

John Forbes Nash: é um matemático norte-americano que trabalhou na Teoria dos jogos, na Geometria diferencial e na Equação de derivadas parciais, servindo como Matemático Sênior de Investigação na Universidade de Princeton. Compartilhou o Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel de 1994 com Reinhard Selten e John Harsanyi. Segundo Nasar, sua biógrafa, Nash começou a desenvolver uma recuperação gradativa com o passar do tempo. Sua vida é retratada no filme “Uma Mente Brilhante”.

Syd Barrett: Um dos fundadores da famosa banda inglesa “Pink Ployd”, originalmente era o vocalista, guitarrista e principal compositor da banda. Foi também um guitarrista inovador, um dos primeiros a explorar completamente as capacidades sonoras da distorção e especialmente da máquina de eco.

Jack Kerouac: Escritor franco-americano,Escreveu a sua obra-prima “On The Road”, em 1957, livro que seria consagrado mais tarde como a “bíblia hippie”, em apenas três semanas.

Van Gogh: Vincent Willem Van Gogh, aclamado pintor holandês, considerado o pioneiro na ligação das tendências impressionistas com as aspirações modernistas, e cujo talento só foi reconhecido após a sua morte.

FILMES:

  • Uma mente Brilhante (EUA-2001) com Russell CroweJennifer Connelly e Ed Harris. O filme narra a vida matemático John Nash.
  • K-Pax – O caminho da luz (EUA-2001) com Kevin Spacey e Jeff Bridges. O espectador é levado à dúvida entre duas possíveis explicações para os acontecimentos apresentados: realidade ou delírio de grandeza. Muito embora o diagnóstico do protagonista não seja revelado, existem fortes indícios de que trata-se de esquizofrenia.
FONTES:

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MINISTÉRIO DA SAÚDE - DATASUS - Esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e transtornos delirantes. Brasilia, 2008. Disponivel em:  http://www.datasus.gov.br/cid10/v2008/webhelp/f20_f29.htm. Acesso em março de 2011.

 

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(POSTAGEM CONJUNTA: LETICIA LACERDA)